Descrição

O ciclone Ronaldo

Foto: Patrick Hertzog/AFP
Análise

Opinião: Ronaldo foi um furacão

1. Bert van Marwijk informou das suas intenções com uma equipa que tinha as novidades anunciadas (Van der Vaart e Huntelaar). O ataque holandês ficou ainda com mais picante, mas a única mudança inesperada foi uma má notícia para Portugal: em vez de Heitinga, quem surgiu ao lado de Mathijsen foi Ron Vlaar. O central do Feyenoord tem a altura, o jogo cintura e a velocidade que faltam aos outros dois. E não se atrapalha tanto nas saídas de bola, facto importante numa Holanda que nunca abdica dos seus princípios. Mais tarde ficaria claro que nem isso resolveu o problema.


2. Os portugueses sofreram um pequeno calvário naqueles dez minutos iniciais. A estatística insinuava também a diferença e, ao fim do primeiro quarto de hora, a Holanda seguia com 70 por cento de posse de bola e um golo no bolso. Resultado de um lance em que houve o movimento habitual de Robben, que soltou no instante certo para o remate de classe de Van der Vaart. João Moutinho foi à esquerda ajudar Coentrão (fórmula estabelecida para poupar Ronaldo das despesas defensivas) e depois faltou alguém na zona em que o médio do Tottenham aplicou o seu temível pé esquerdo.

3. O golo da Holanda teve o condão de mudar a paisagem do jogo. Portugal carregou e foi a vez de a Holanda expor todas as suas misérias. A selecção portuguesa tinha tido mais complexos do que devia frente à Alemanha. Então, praticamente só investiu no ataque continuado no último quarto de hora. E só aí descobriu que a defesa alemã era vulnerável. No domingo foi muito diferente. Portugal cedo mostrou que não estava disposto a voltar a aceitar um papel secundário e nunca permitiu que a Holanda ficasse cómoda no seu jogo.

4. Para a melhoria portuguesa contribuiu a troca de Moutinho com Meireles, incumbido agora de fechar na esquerda. Portugal tinha-se mantido congelado até que João Moutinho decidiu tomar conta dos comandos. Até aí faltava à selecção portuguesa um ponto de comunicação. O seu futebol panorâmico permite jogadas geométricas. Importante também o papel de Postiga, o primeiro a pressionar uma defesa holandesa que se via aos papéis com esta acção concertada de Portugal. E, lá atrás, poder-se-ia dizer que Pepe se exibia a um nível galáctico, isto se esse título não tivesse sido reclamado, com inteira justiça, por Cristiano Ronaldo. Só faltava um pouco mais de Nani, que apareceria mais tarde.

5. Portugal empatou num lance em que Miguel Veloso pressionou o ingénuo Willems. O movimento e a assistência de João Pereira foram deliciosos, tal como a finalização do CR7. Portugal regressava ao segundo lugar depois de estado em quarto (pouco antes aconteceu o golo da Dinamarca). Antes e depois do primeiro golo de Ronaldo, Portugal deu demasiados tiros em seco. Entre os 16’ e os 23’, construiu e desperdiçou cinco chances de golos, incluindo uma bola no poste. A posse de bola portuguesa subiu para 41 por cento.

6. A Holanda foi vítima do seu próprio maquiavelismo táctico. Não funcionou o plano A nem o B (quando assumiu uma defesa de três homens). Combateu sem fluidez, de forma espasmódica. A partir dos dez minutos, Sneijder ficou esquecido e desaproveitado na esquerda e Van der Vaart foi esquecendo qualquer pretensão criativa e nunca conectou com os avançados. A partir de certa altura, era mais o ruído do que as nozes. As coisas melhoraram quando Robben passou para a esquerda e Van Persie para o lado contrário, recuando Sneijder. Mas coisa pouca.

7. Paulo Bento esteve quase sempre à frente de Van Marwijk, que só levou vantagem naqueles minutos iniciais. Depois, foi o seleccionador português a mandar e tomar primeiro a iniciativa, designadamente quando optou por jogar praticamente em 4x1x3x2 e quebrou a Holanda com uma série de transições rápidas e com uma pressão alta sobre a defesa holandesa. No fim, fez o que se impunha e juntou Rolando a uma defesa que tropeçava nos inúmeros avançados adversários.

8. No domingo, a selecção portuguesa precisava da melhor versão do seu capitão. E teve-o. Cristiano Ronaldo respondeu à altura. Foi um verdadeiro ciclone, sempre solto e desinibido como nos seus melhores dias. Marcou dois golos, enviou duas bolas aos postes, ofereceu um golo que Stekelenburg roubou a Nani e fez gato-sapato de Van der Wiel. Voltou a divertir-se a jogar, o que nem sempre lhe aconteceu nos últimos jogos. E isso notou-se-lhe até na expressão facial.