EPA / John Mottern

Viciado no jogo


No dia 25 de Setembro, foi revelado o segredo mais mal guardado do mundo desportivo dos últimos tempos. Aos 38 anos, Michael "Air" Jordan regressa para uma terceira aventura no basquetebol. As expectativas são altas, mas também são muitas as interrogações se levantam sobre a volta do melhor basquetebolista de sempre.

"Quando tiver 40 anos, quero jogar golfe todos os dias. E gostava de ter qualquer coisa semelhante a uma vida normal. Mas sei que nunca vai ser completamente normal." Era o desejo formulado por Michael Jordan numa entrevista concedida à revista "Hoop" em Abril de 1997, logo após ter conquistado o quarto dos seus seis títulos na Liga Norte-Americana de Basquetebol profissional (NBA). Jordan, que terá 39 anos em 17 de Fevereiro de 2002 (nasceu em 1963), não irá ver o seu desejo cumprido, pois, quando chegar aos 40, estará a jogar basquetebol pelos campos da NBA, a cumprir o segundo dos seus dois anos de contrato com os Washington Wizards. Não por ser obrigado, mas por vontade própria. Por causa de uma comichão que tinha de coçar.

"Não me tinha apercebido que a comichão ainda lá estava até me ter aproximado outra vez do jogo. O que estou a tentar fazer é tentar livrar-me dela e não passar o resto da minha vida a pensar nisso", afirmou Jordan perante mais de 200 jornalistas na primeira conferência de imprensa que deu, uma semana depois de ter tornado oficial o seu regresso no passado dia 25 de Setembro. "A terceira vinda de Jordan", foi assim apelidado pelos "media" mais um "comeback" do unanimemente reconhecido como o melhor basquetebolista de todos os tempos, depois de dois abandonos prévios em 1993 e 1999.

Aquele a quem um dia chamaram "Air" Jordan pela maneira como voava em campo mais alto que todos os seus adversários preparou cuidadosamente o seu regresso, recuperando a forma em segredo e não dando entrevistas. Quando falava, dizia sempre "com 99,9 por cento de certeza" que nunca iria voltar. Mas a porta ficava sempre aberta. E sempre havia o seu amigo e parceiro de golfe, o também retirado Charles Barkley, a alimentar ainda mais a especulação, falando de um reencontro em Washington das duas antigas "estrelas", que só tinham jogado juntas no "Dream Team" (equipa de sonho) que conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992.

Um voto de silêncio foi o que foi exigido aos jogadores convidados para participar nas partidas de recuperação ("pickup games") de Jordan. Desde Junho passado, na companhia de algumas das actuais estrelas da NBA (Antoine Walker, Michael Finley ou Anfernee Hardaway - Tracy McGrady, Vince Carter e Kobe Bryant recusaram o convite), que Jordan procurava avaliar a sua condição física para um possível regresso. O secretismo da preparação abriu a porta à especulação, desde Jordan a arrastar-se pelo campo até Jordan a jogar como antigamente. Ainda assim, sempre se foi sabendo que "Sua Majestade Voadora" partiu duas costelas num desses encontros de preparação, o que adiou o seu regresso por algum tempo mais.

Jordan chegou à NBA em 1984 rotulado de jovem talentoso e de futura "estrela". Mas não foi a primeira escolha do "draft" (recrutamento dos melhores basquetebolistas das universidades). Hakeem Olajuwon foi escolhido na primeira posição pelos Houston Rockets e Sam Bowie logo a seguir pelos Portland Trail Blazers. Só depois Jordan foi escolhido pelos Chicago Bulls. Foi a última vez que menosprezaram o seu talento. No seu ano de estreia recebeu honras de melhor "rookie" (novato) da temporada, terminando a época com uma média de 28,2 pontos marcados por jogo (terceiro da NBA) e liderando os Bulls na sua primeira presença nos "play-off" desde 1981.

Desde logo que os responsáveis da equipa se aperceberam que Jordan seria o jogador ideal para se construir uma equipa. A Chicago foram chegando, entretanto, jogadores como Scottie Pippen e Horace Grant, mas os Bulls só começariam a ganhar com Phil Jackson, o treinador que esteve nos seis títulos de Jordan e que conduziu os Los Angeles Lakers de "Shaq" e Kobe à vitória final nas duas últimas épocas. Os anos seguintes foram um acumular de títulos individuais e colectivos e a construção de uma imagem de marca muito forte (teve direito a 47 capas da prestigiada revista norte-americana "Sports Illustrated", por exemplo) e internacionalmente reconhecida. Jordan tornou-se tão popular que o seu nome chegou mesmo a ser proposto para a presidência dos EUA. "Draft Michael Jordan for President" (recrutem Michael Jordan para Presidente), era o nome da campanha ao qual o próprio nunca se associou. "Tempo para uma nova liderança", era o lema de uma plataforma que chegou a ter cerca de 500 militantes.

A primeira interrupção na carreira surgiria em 1993, após o terceiro título, depois da morte do seu pai James Jordan, assassinado à beira de uma estrada na Carolina do Norte. "Air" retirou-se no auge da forma e decidiu tentar uma experiência no basebol. O destino foram os Chicago White Sox, mas depressa desceu para uma equipa secundária, por onde só não passou despercebido porque era Jordan e não outro qualquer. Dezassete meses depois estava de volta à NBA.

Não sendo já a potência voadora de outros tempos, MJ seria obrigado a reinventar a sua forma de jogar para um estilo menos espectacular que fosse igualmente eficiente. E passou muito do seu tempo livre a treinar lançamentos. Os efeitos fizeram-se sentir no campo e Jordan ganhou a reputação de temível lançador de longa distância, acrescentando assim mais uma arma ao seu já extenso arsenal ofensivo.

A 13 Janeiro de 1999, pouco tempo antes do início de uma época que acabaria por ser encurtada por conflitos salariais entre patrões e jogadores, Jordan anunciaria o seu segundo abandono, alegando cansaço, mas a verdade é que não estava disposto a continuar numa equipa que se iria desfazer. "Se eles tivessem mantido a base da equipa campeã eu teria ficado", revelou posteriormente Jordan que, como jogador, não queria participar na reconstrução dos Bulls já sem Scottie Pippen e Phil Jackson.

Mas o apelo da NBA foi mais forte e MJ regressou em Janeiro de 2000 para assumir o cargo de director de operações dos Wizards, passando ainda a deter uma percentagem da organização. Nesta sua nova função, Jordan despediu treinadores, dispensou jogadores e obrigou a equipa a andar bem vestida. E ia aproveitando para dar uns toques com os seus novos empregados.

Durante os anos 90, Jordan foi o centro de gravidade de uma cidade que era conhecida como a terra natal do lendário "gangster" Al Capone. Para os habitantes de Chicago perder o seu grande emblema foi, primeiro que tudo, deixar de ver os Bulls no topo da NBA. A travessia no deserto prossegue, o renascimento da equipa tarda e a sombra de Jordan, que havia prometido jogar toda a sua vida nos Bulls, continua a pairar.

Só assim se compreende que as gentes de Chicago não pareçam dispostas a perdoar agora o regresso de "Air" com outro equipamento que não seja o dos Bulls, que têm uma estátua de Jordan à porta do United Center. "É óptimo para toda a Liga e para o país. A não ser que se viva em Chicago", considera um residente da "Windy City" (cidade do vento). "Há algo de traição nesta história. As pessoas de Chicago gostam de se sentir donos dos seus atletas. É uma grande cidade, mas é uma grande cidade de província. Se alguém não está connosco é porque está contra nós", observa Sam Smith, um veterano jornalista do "Chicago Tribune".

Um pouco por toda a Liga, entre jogadores e treinadores as reacções ao regresso de Jordan foram diplomaticamente unânimes. "O regresso de Jordan vai ser maravilhoso para o desporto. Tenho é pena que ele tivesse recusado vir jogar para os campeões", considera Phil Jackson, treinador dos actuais campeões Lakers. "Acho que vai ser uma época com jogos espectaculares", perspectiva "Magic" Johnson, uma outra ex-"estrela" da NBA que regressou por breves meses à competição (com pouco sucesso) quatro anos depois de se ter retirado devido a estar infectado com o vírus da SIDA. Tal como os Bulls, a NBA também nunca conseguiu libertar-se da magia de Jordan, nem com o poder físico de "Shaq", nem com a elegância de Tim Duncan ou com as capacidades voadoras de Vince "Air Canada" Carter, o que será a maior prova do que "Air" significa para a modalidade e para o desporto em geral. Então, porquê correr o risco de diminuir o seu fantástico legado com um regresso que pode não correr bem? "Por amor ao jogo", responde Jordan, que terá como missão melhorar uma equipa que na última época apenas venceu 19 jogos. Uma árdua tarefa para um homem que se retirou do basquebol marcando o último cesto no último segundo da sexta partida das finais de 1998 frente aos Utah Jazz e que deu aos Bulls o seu sexto título em oito anos.

A resposta a esta pergunta só será dada a 30 de Outubro, quando Jordan e os seus Wizards defrontarem os New York Knicks no mítico Madison Square Garden, naquele que será o primeiro jogo da época 2001/2002 da NBA, mais de três anos depois daquele que se considerava um final de carreira perfeito. "Não estou a cometer nenhum crime. Quero apenas jogar basquetebol. Se correr mal, vou sobreviver", explica Michael Jordan, a duas semanas de testar a sua natureza competitiva em mais um desafio.