<p>Nélson Évora não dedica uma especial atenção ao seu ouro olímpico</p>

Nélson Évora não dedica uma especial atenção ao seu ouro olímpico

Foto: Fabrice Coffrini/AFP
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Uma medalha olímpica é para toda a vida

"As medalhas não são bem nossas, são do país", assegura Nuno Delgado, o judoca português que conquistou bronze nos Jogos de Sydney 2000. E isso explica que ele a tenha disponibilizado para o Museu do Desporto, em Lisboa, onde está exposta, enquadrada num trabalho artístico que tem o troféu como peça fundamental. Mas nem todos os medalhados olímpicos mantêm esta relação, digamos, institucional com a rodela de metal que simboliza a excelência desportiva.


O próprio Nuno Delgado, presente em Londres como membro da representação do Comité Olímpico de Portugal (COP), admite que, embora não seja o tipo de pessoa que opta por "galerias pessoais de troféus", uma medalha olímpica continua a ser um marco fundamental na carreira de qualquer atleta. "Depois de ganhar devemos olhar em frente, ambicionando novas conquistas. Não sou muito saudosista, mas é claro que há momentos em que sabe bem reviver essas boas memórias..."

Foi, durante alguns dias, uma referência incontornável na análise dos resultados dos Jogos de Londres 2012. De repente, feitas as contas, percebia-se que o nadador norte-americano Michael Phelps tinha conquistado tantas medalhas como todos os portugueses juntos em mais de um século de presenças olímpicas. A 23.ª, conquistada pelos canoístas Emanuel Silva e Fernando Pimenta, desempatou, a favor das cores lusas...

Só que, enquanto Phelps (que numa entrevista recente aparecia a desembrulhar uma t-shirt velha, revelando os seus troféus de Pequim 2008) se pode dar ao luxo de assumir que não consegue, de momento, garantir o paradeiro de uma das suas medalhas, para qualquer medalhado português a rodelinha de metal recebida num pódio olímpico é qualquer coisa de único e especial. Mesmo se três deles – Carlos Lopes, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro – têm duas.

Todos eles conquistaram uma medalha de bronze e uma de ouro (Lopes juntou o segundo lugar nos 10.000m em Montreal 76 à vitória na maratona de Los Angeles 1984; Rosa Mota foi terceira na maratona em LA 84 e primeira em Seul 1988; Fernanda Ribeiro somou ao ouro nos 10.000m em Atlanta 1996 o bronze na mesma distância em Sydney 2000). A lista de quatro troféus dourados da história do olimpismo português completa-se com o triplo salto de Nélson Évora em Pequim 2008.

Nélson, no entanto, não parece dedicar a esta raridade uma atenção muito especial: mantém o seu troféu guardado no escritório lá de casa, mas discretamente arrumado fora da vista.

Não é a atitude mais comum. Rui Silva, que chegou ao bronze nos 1500m em Atenas 2004, montou uma vitrina especial com os troféus "mais marcantes" e, na sua sala, lá está exposta a medalha olímpica. Para quem o visita pela primeira vez, é sempre alvo de curiosidade especial. "É normal, as pessoas nunca viram uma medalha olímpica", assume ele. Quem passa lá por casa mais vezes, já está habituado - ela nunca sai dali. "Levei-a à televisão, não mais do que isso."

O próprio Rui não gosta de pensar na medalha como um ponto culminante da sua carreira. "Não vivo à sombra da bananeira. Continuo a ter outros objectivos e a medalha, tal como outros troféus, serve de inspiração para continuar a lutar por eles. O passado é o passado. Mas, tal como os maus momentos, os bons estão sempre presentes. E uma boa recordação motiva nos momentos difíceis da carreira. Quando olho para ela, costumo pensar: "Se consegui uma vez, porque não hei-de conseguir novamente?" E isso anima-me."

Outro atleta, outra história, mas com um ponto comum: também o atirador Armando Marques, prata no fosso olímpico em Montreal 1976, colocou a sua medalha olímpica numa vitrina em casa. "Passo por ela todos os dias e, então nestas alturas em que se disputam Jogos, há sempre memórias", recorda o homem que, ainda recentemente, foi apresentado a pessoas na praia que o conheciam de nome e feitos desportivos, mas nunca o tinham visto. Nem na TV. "Às vezes parece que só as medalhas de ouro contam...", desabafa.

E não devia ser assim. Para um país que continua a desempenhar papéis muito secundários no panorama olímpico, um medalhado em Jogos representa uma raridade. Talvez esse alheamento também explique alguma atitude conformista quando se enfrenta a alta competição. "Falta uma melhor mentalidade desportiva no país, mas também penso que falta o espírito ganhador em muitos atletas portugueses." Palavra de quem costuma acertar no alvo.

Notícia corrigida às 11h45