Reportagem

Um campeão não se faz sozinho

Quando um atleta ganha uma medalha numa competição, a família também ganha. Quando um atleta sofre uma lesão, os treinadores e as pessoas que o apoiam também sofrem com isso. Aos 13 anos, Rafaela Valente é um desses exemplos. É com dedicação que se entrega à ginástica rítmica e sonha um dia alcançar os Jogos Olímpicos. Os atletas não caminham sozinhos e alcançam o sucesso com ajuda de pessoas que nem sempre se vêem, mas estão lá.


“Eu gostava de chegar aos Jogos Olímpicos. É o meu maior sonho”, afirma Rafaela, sentada no chão do ginásio da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense (SFUAP), em Almada, onde entrou pela primeira vez há cinco anos.

Começou a praticar ginástica rítmica aos nove anos, um pouco mais tarde do que a maioria das atletas, que por volta dos seis já ensaiam as primeiras coreografias. Mas a entrada tardia para a modalidade não impediu uma evolução rápida e o acesso ao mundo da competição.

“No primeiro ano, começou logo nos campeonatos nacionais a ficar em segundo e terceiro lugares nos aparelhos”, recorda a treinadora Sandra Nunes.

Longe vão os dias em que não sabia muito bem qual a sua posição no tapete e caía durante os exercícios. Agora, durante três ou quatro horas por dia, todos os dias da semana, quando a música começa lança-se em saltos e piruetas e atira bolas e arcos ao ar, uma e outra vez, até a coreografia se tornar irrepreensível.

A este ritmo, seguiram-se provas maiores. Em Abril, disputou o Campeonato Internacional no escalão júnior, em Pesaro, em Itália. No mês seguinte, participou no Campeonato Europeu, na Rússia, onde a equipa portuguesa atingiu o alto rendimento com a 25ª posição.

Rafaela tem uma relação muito próxima com a mãe, Elsa Coimbra, de 41 anos. Elsa sempre admirou a modalidade, mas, por motivos económicos, nunca pôde praticá-la. Agora, acompanha a filha na maioria das provas e, por vezes, assiste aos treinos. Formam uma equipa, em que a mãe vibra com cada coreografia e fica com “formigueiros no estômago” pela ansiedade da competição.

Um dia-a-dia exigente

Com uma atleta em casa, Elsa está habituada a alguns sacrifícios que vão desde uma alimentação regrada a uma coordenação apertada dos horários.

Na dieta de Rafaela evitam-se os doces e os fritos e aposta-se no teor energético dos hidratos de carbono. Aqui a mãe também dita as regras: “Não compro bebidas gaseificadas, nem batatas fritas e ao jantar as refeições são mais leves: sopas e saladas”.

Com aulas e treinos, o dia-a-dia é agitado e, por vezes, Rafaela chega a estudar no ginásio entre coreografias e exercícios de flexibilidade. Segundo Marina Serra Lemos, psicóloga na área de Educação e Desenvolvimento da Universidade do Porto, os atletas de alta competição têm, normalmente, “maior capacidade de organização e auto-regulação”, desenvolvendo métodos que podem ser aplicados noutras áreas da vida.

As idas ao cinema e a festas de aniversário dos amigos são também, geralmente, sacrificadas. “Custa-me um pouco, porque gostava de estar com eles e não posso para vir treinar”, confessa a atleta.

Segundo Augusto Carreira, pedopsiquiatra no Hospital D. Estefânia, em Lisboa, quando se fala numa criança que pratica uma modalidade de alta competição a principal preocupação é “perceber se está a desenvolver-se como grande desportista ou como ser humano”.

O clínico realça a importância de as crianças estarem socialmente integradas e participarem em actividades lúdicas típicas da sua idade. “Porque interessa pouco ter um desportista com performances fantásticas, mas com dificuldades a nível de desenvolvimento social e emocional”, justifica.

O maior desafio para a Rafaela surge, no entanto, nos períodos de férias escolares, em que a rotina de treino não é quebrada. Mesmo em Agosto, quando o ginásio está encerrado, os treinos continuam em casa, embora com menor intensidade. “A mãe treina com ela a parte da flexibilidade que é muito importante, o que nem todas as atletas fazem. É uma mais-valia ter a mãe do nosso lado”, refere a treinadora.

Além de uma rotina quase cronometrada, a prática da modalidade envolve custos. Um fato pode custar, em média, 100 euros, mas este preço é inflacionado com os brilhantes que o fazem sobressair nas actuações. “O mais caro que a Rafaela já usou custou mais de 300 euros, porque levava cerca de 2000 brilhantes Swarovski”, conta Elsa, acrescentando que ainda se lembra de os colar um a um.

Um sonho difícil de concretizar

Aos 13 anos, o maior sonho da Rafaela é competir nos Jogos Olímpicos. Para tal, conta com o apoio da treinadora, em maratonas onde a disciplina é a palavra de ordem e o gosto a principal motivação. “O meu objectivo é treinar atletas para o alto rendimento, mas só faço campeãs se elas quiserem, porque os treinos são dolorosos e é preciso gostar muito”, afirma Sandra.

Rafaela gosta muito e a motivação é o combustível que mantém este estilo de vida em funcionamento. “A ginástica nunca foi uma obrigação”, assegura. “Implica muitos sorrisos e algumas lágrimas, mas só se faz porque ela gosta muito, se não, não fazia sentido nem para mim, nem para ela”, afirma a mãe.

Contudo, nem sempre é assim. Sandra já treinou ginastas que iniciaram a prática da modalidade mais por desejo dos pais do que por vontade própria, o que, a longo prazo, contribuiu para uma desmotivação crescente e um abandono da competição.

Augusto Carreira considera que os atletas que se iniciam mais cedo na alta competição estão mais vulneráveis a pressões externas. O clínico acrescenta que, tendencialmente, “os campeões mais genuínos são os que fazem [desporto] por gosto e, por isso, não têm tantas rupturas a nível desportivo e emocional”.

Para Marina Serra Lemos, em casos de desmotivação é importante os pais compreenderem a razão do desinteresse do atleta antes de tomarem qualquer decisão, “procurando compensar insatisfações e potenciar os resultados positivos”.

Embora tenha tido, até então, um percurso invulgar, Rafaela sabe que o desejo de pisar uma aldeia olímpica pode nunca se concretizar. Grande parte dessa consciência adquire-se nos treinos em que Sandra adopta um discurso franco, demonstrando que só um grupo restrito de ginastas consegue alcançar esses patamares. “Posso chegar lá ou não, mas sei que não posso ficar desiludida”, afirma Rafaela com convicção.

Para o pedopsiquiatra, os treinadores devem conseguir passar a mensagem de que “o sucesso na vida não pode ser medido pelo sucesso desportivo”. “O importante é haver uma formação global e eles não podem ter um único sonho, têm de ter mais”, sustenta.

Por enquanto, Rafaela tem este sonho, que a mãe e a treinadora alimentam. Sabe, no entanto, que caso não o alcance continuará a receber o apoio de todos. “O ela não chegar lá pode ser por vários motivos, mas nunca será uma desilusão e hei-de estar ao lado e apoiá-la no que for preciso”, afirma Elsa.