maRCO MAURÍCIO/ARQUIVO
Harold Bloom (1930-2019)

“Só falta começarem a partir-me os vidros das janelas”


Aos 71 anos, Harold Bloom, professor na Universidade de Yale, é possivelmente o crítico literário mais lido em todo o mundo. Alguns acrescentarão que é o melhor. Todos concordarão que é o mais polémico. Dos 24 livros que publicou, incluídos os dedicados a temas religiosos, o que melhor condensa as suas teses centrais em matéria de apreciação de obras literárias é A Ansiedade da Influência (1973), onde Bloom enumera os diversos modos pelos quais os melhores poetas — ou os mais “fortes”, na sua terminologia — lidam, nos respectivos textos, com a influência exercida por precursores igualmente fortes. Estratégias que vão da tentativa de encobrir a dívida até a uma perversa forma de absorção, através da qual os textos do poeta posterior nos devolvem o poeta anterior como se ele, na verdade, fosse o influenciado, e não o precursor. 

Este era ainda, como ele próprio diz nesta entrevista, um livro escrito para o interior da academia. Com o Cânone Ocidental (1994), é já um Bloom voltado para o grande público que passa em revista a melhor literatura ocidental de todas as épocas. A edição portuguesa, da Temas e Debates, encerra com longas listas de escritores “canónicos”, que o autor entretanto repudiou e que já não constam da maioria das traduções estrangeiras do livro.

Harold Bloom esteve na passada terça-feira na Fundação Luso-Americana, onde interveio na sessão de lançamento de um número da revista Portuguese Literary & Cultural Studies dedicado a Saramago — o romancista, a quem o crítico não poupa elogios, esteve igualmente presente —, e é amanhã doutorado honoris causa pela Universidade de Coimbra. Anteontem, Bloom foi o orador convidado de mais uma conferência do ciclo O Futuro do Futuro, promovido pela Porto 2001. Apresentado por Maria Irene Ramalho, que sublinhou quer as suas características mais incómodas, quer as suas inegáveis virtudes de leitor infatigável e perspicaz, o ensaísta deu uma notável lição de leitura, cujo alcance só pôde ser inteiramente avaliado no final, quando se percebeu que tudo o que dissera desde o início concorria para ilustrar a tese de que certos autores carregam a influência das suas próprias personagens, uma convicção que ilustrou através do modo como Hamlet e Falstaff condicionaram a posterior escrita de Shakespeare.

Falando para uma sala cheia, Bloom refreou por uma vez os seus ímpetos contra a “Escola do Ressentimento”, um termo que inventou para não ter de diferenciar os múltiplos sistemas e tendências — do desconstrucionismo ao feminismo — que atacam a hegemonia do estético no domínio da crítica literária. Talvez já tivesse descarregado o suficiente nesta entrevista, dada imediatamente antes da palestra, na qual investe furiosamente contra todos os que pretendem abrir o “cânone ocidental”, promovendo “obras-primas de esquimós lésbicas”.

Não se pode dizer que esta seja uma entrevista muito ortodoxa. Bloom teve de ser acordado pela mulher para vir falar com o PÚBLICO, estava esgotado por ter feito de carro a viagem Lisboa-Porto, e, como ele próprio confessa, tinha bebido de mais ao almoço. Depois, tem o hábito de responder antes de ouvir as perguntas, o que é provavelmente irrelevante, uma vez que, fossem elas quais fossem, diria sempre exactamente o que quer dizer. E desta vez o que lhe apetecia mesmo era zurzir no “politicamente correcto”.

Mal se sentou, e sem dar tempo a que se lhe pusesse qualquer questão, desatou a querer saber coisas sobre o entrevistador. Que não interessam a ninguém, mas das quais se mantiveram as que lhe serviram de pretexto para falar de Eça e Camões. Acabou por permitir que entrevistado e entrevistador regressassem às suas canónicas posições relativas, mas de vez em quando esquecia-se. Confessamos ter havido momentos — felizmente o gravador anda sozinho — em que também nos esquecemos de que estávamos a entrevistá-lo, tão difícil é escapar ao seu fascínio hipnótico, sobretudo quando começa a queixar-se da idade e assume uma pose teatral que faz irresistivelmente lembrar o actor Charles Laughton nos seus últimos papéis.

E como é que você se chama, meu caro?
Miguel Queirós.

Queirós? Como Eça? Um romancista maravilhoso. E você é casado, tem filhos?
Uma filha de seis meses.

Como se chama?
Inês.

Como a Inês de Castro? Ainda ontem falei dela. É de partir o coração, aquela passagem onde Camões fala do sangue que cai nas rosas brancas, do pescoço de alabastro... Grande poema. Poderosíssimo, escandaloso, ultrapassa de longe tudo o que Virgílio fez. Tenho pena de não falar português. As poucas vezes que me encontrei com o Saramago, foi muito difícil fazermo-nos entender. Eu leio português, mas tenho dificuldades na pronunciação, e o inglês dele é inexistente. De modo que falamos numa mistura alucinada de francês, italiano e espanhol. O Saramago é um grande escritor e uma pessoa simpatiquíssima.
O que lhe ia perguntar...

Vamos a isto, vamos a isto. Faça de conta que fomos amigos toda a vida, que sou seu pai, que por acaso até sou.
Bem, na entrevista que deu ao Diário de Notícias diz que Pessoa não saiu vencedor da sua luta com Camões...

Como é que se pode ganhar uma batalha a um sujeito como aquele? Um homem só com um olho, que matou outro numa rixa de rua, que sobreviveu a um naufrágio, um enorme poeta lírico. Pessoa é um poeta excelente e uma pessoa fascinante e estranha, mas creio que, para ele, foi muito embaraçoso que existisse um poeta como Camões em língua portuguesa. Virou-se para Whitman para escapar a Camões, mas também Whitman se revelou forte de mais para Álvaro de Campos. E eu adoro Campos.
O que lhe ia perguntar tem a ver com isso. O facto de Pessoa ele-mesmo e Álvaro de Campos...

Pessoa aprendeu inglês em criança, como Borges. Linguisticamente, é um caso estranhíssimo. E isso de escrever sob vários nomes não é único. Browning, que Pessoa conhecia bem, fez o mesmo. O caso de Pessoa não é muito diferente. Criou Campos, Reis e aquele que não funciona de todo... como se chama?
Caeiro.

Esse é um mito. Os poemas não são bons e o expediente é óbvio.

E Reis, não é um pouco subestimado?
Sem dúvida. Todavia, há esse livro extraordinário de Saramago sobre Ricardo Reis...

Pessoa e Campos são ambos poetas fortes, para usar a sua expressão, e atribui-lhes precursores diferentes. Não lhe parece que, além de autenticar a multiplicidade pessoana, este facto vai ao encontro da sua insistência em que a Ansiedade da Influência, tal como a entende, é um fenómeno entre textos literários, e não, ou não necessariamente, entre personalidades?
Não me fale nisso. De todas as ideias que tive na minha pobre e velha vida, essa foi, sem dúvida, a mais mal compreendida. Claro que não se trata de influências nas pessoas, mas apenas do que acontece entre obras literárias. A ansiedade de que falo não produz uma leitura desviante [misreading] forte; é justamente o resultado dela. Não é de todo uma coisa pessoal.

No Cânone Ocidental refere muitos ensaístas do passado e do presente. Mas não há uma única alusão a um autor que parece aproximar-se de muitas das suas posições, já para não falar do comum interesse pelo judaísmo gnóstico...
Quem? Quem?

George Steiner.
Ah, o famoso George! Nós já conhecemos o famoso George!

Não acha que há algumas semelhanças, sobretudo...
Não tenho comentários. Estou certo de que é uma excelente pessoa, mas conheço-o muito mal e praticamente não li nada dele. O melhor para mim é não dizer nada.

Defende que cada época privilegia um género. A poesia está em franca queda. Acha que é irreversível?
A audiência da poesia anda a descer desde 1850. O poema foi substituído pelo romance. E mesmo este, apesar de exemplos tão distintos como [Philip] Roth ou Saramago, pode estar a morrer. Sinto que algo acabou com Proust, Joyce e Beckett. Decerto que alguma outra coisa tomará o seu lugar. A literatura de imaginação sempre existiu. Não há cultura, por mais recuada, que a não tivesse. Agora assistimos a este fenómeno dos best-sellers populares, que, nos EUA, são lidos por centenas de milhares de pessoas. De tudo o que escrevi nos últimos anos, o que causou mais fúria foi um pequeno artigo, até gentil, a dizer que os livros de Harry Potter não tinham qualquer valor estético, psicológico ou seja o que for.

Quem o lê pode ser assaltado pelo receio perverso de que o seu talento persuasivo talvez chegasse para nos convencer tão facilmente de que Jane Austen é superior, digamos, a Henry James, como do inverso.
É uma comparação fascinante. Creio que dramaticamente ela é superior. Os filmes que fizeram dos livros de Austen são muito eficazes. Com James, não funcionam.

Sim, mas ele tem aquelas ambiências tão peculiarmente singulares.
Sim, sim, e foi justamente por isso que falhou como dramaturgo. Austen, se tivesse vivido mais, teria podido escrever peças de teatro.

James é hoje lido nos Estados Unidos?
Sabe, estou a perder a minha capacidade de indignação. Há uns anos lamentei que o grande ironista Thomas Mann já não fosse lido nas universidades. Agora tiraram-no do armário e ensinam-no outra vez. Sabe porquê? Porque conseguiram demonstrar, com base nos seus diários, que Mann era um homossexual secreto. É a pura verdade. O ironista era demasiado difícil. Recuperaram-no como autor gay. E o mesmo aconteceu com James. É a loucura total.

Quem leu The Anxiety of Influence, de 1973 [editado na Cotovia com o título A Angústia da Influência], e, depois, O Cânone Ocidental, de 1994, verifica que a sua linguagem e argumentação se tornaram muito mais acessíveis. Foi deliberado?
Aí por 1990 cheguei à conclusão de que não valia a pena escrever para um único académico. Voltei-me para o público em geral. E descobri que ele existia. Os leitores estão aí. São milhares, em todo o mundo. O que me dá forças para viajar tanto, nesta idade, é que, em todo o lado onde falo, me aparecem verdadeiros leitores. São brancos, negros e asiáticos, são homossexuais e heterossexuais, são velhos e novos, ricos e pobres. São leitores. Pessoas completamente indiferentes a todo esse lixo que se ensina nas universidades. Fora da academia não há guerra nenhuma, porque ninguém lhes liga patavina.

Que livros é que o despertaram para a literatura, em criança?
Cresci no Bronx e não falava inglês, só yiddish. Por isso é que a minha pronúncia é esquisita. Apaixonei-me violentamente pela poesia quando era ainda muito novo. Aos seis anos estava a decorar Blake e Hart Crane, os primeiros poetas que realmente amei. E pouco depois comecei a ler Shakespeare e Milton. Aos dez, encantei-me com os Pickwick Papers de Dickens. Hoje penso que sou muito feliz por ter nascido em 1930. Se tivesse sido em 1900, o meu estatuto de proletário judeu ter-me-ia fechado o acesso aos cursos de literatura. E se tivesse nascido em 1970, nunca me dariam emprego. Ainda que fosse dez vezes mais dotado, jamais me contratariam, porque as minhas opiniões não são aceitáveis. Mas o que se passa hoje não tem muita importância, porque estão sempre a nascer novos leitores. E se as universidades não os ensinam, eles ensinam-se a si próprios. Não é uma tragédia cultural. É uma inconveniência, uma má comédia. Tragédia é o poeta A. R. Ammons ter acabado de morrer com um cancro, ou uma querida colaboradora minha estar a morrer com um tumor na cabeça. Estas é que são as tragédias. Desculpe-me. Estou muito cansado. E encontro-me numa posição ridícula. O que podemos dizer um ao outro que não tenha já passado nas muitas entrevistas que dei? Posso tentar ser infinitamente fértil na minha condenação do actual estado de coisas. Mas não vale a pena. E se calhar foi sempre assim. A vasta maioria dos universitários sempre foi uma mistura de impostores, atrasados mentais, preconceituosos e líderes de claque. Não há nada de novo nisto. Parto em breve e tenho pena de não ter conhecido melhor Portugal. Duvido que cá volte. Estou velho e sou um mau viajante. Só sirvo para falar com as pessoas, como nós os dois estivemos a falar. De resto, sou inútil.

Acha que é impossível distinguir aquilo de que genuinamente se gosta e aquilo que se considera merecedor de estatuto canónico? Poe está nas ditas listas e, no entanto, no seu último livro, Como Ler e Para Quê?, afirma que os seus contos e poemas são atrozmente mal escritos.
"Hélas!”, temos de aguentar com ele. Mas é um poeta abominável. Perguntam-me porque é que não concordo com Mallarmé, Baudelaire, Valéry, que o admiraram. A verdade é que Poe se lê muito bem em traduções, mas é impossível de ler no original. Costumava dizer que não há piores poemas do que os seus em língua inglesa. Hoje já não é verdade. Nesta era do ressentimento, temos agora... [Olha para a mulher, que assistiu a parte da entrevista, pedindo-lhe conselho. “Diz só que agora há poemas que ainda são piores”, recomenda Janet Bloom.] Agora temos obras-primas de lésbicas esquimós. A minha mulher não gosta nada que eu diga isto. É uma coisa que vai chegar aqui. Vão dizer muito bem de poemas terríveis, apenas porque são escritos por lésbicas de Cabo Verde. Saramago, como Beckett, recebeu o Nobel pelo valor estético do que escreveu. Mas quem acreditaria que Toni Morrison o teria recebido se não fosse uma mulher negra? Ela escreveu bons livros, no início, como Salomon's Song, mas deram-lhe o Nobel por Beloved, que não está sequer ao nível da literatura de supermercado. A vantagem de se chegar aos 71 anos, é poder dizer-se a verdade. Já não importa muito não ofender as pessoas. E também não sou responsável pelo que digo. Acordou-me de um sono pesado, bebi um excelente vinho tinto português ao almoço, e conhaque, dói-me uma anca, tenho reumatismo e ainda vou ter de dar uma conferência.

Com a quantidade de obras que se editam todos os anos, como sabe que livros há-de ler?
Não imagina como é bom sair de casa dez dias. Quando regressar, entre a casa de New Haven, o apartamento de Nova Iorque e o gabinete da universidade, já me terão chegado mais 500 livros. Como é que faço? O que é que posso dizer? Já nem tenho sítio onde os arrumar. Folheio-os, porque há sempre a esperança de que alguma coisa nos surpreenda, o que não acontece com frequência. Estou a ficar velho e farto. Sou um dinossauro, uma espécie extinta. Há muito que a guerra nas universidades está perdida. Vou contar-lhe uma experiência muito interessante. Há três anos fui dar umas conferências à Universidade da Califórnia, que é muito politicamente correcta. Há três anos eu ainda não era bem este homem alquebrado que aqui vê. Hoje sou completamente patético, já não há nada em mim que anseie pelo combate, sou macio, gentil...

Estava a dar uma conferência, quando a sala literalmente explodiu. Queriam mesmo linchar-me, só porque eu, finalmente, disse a verdade. Virei-me para eles e disse-lhes. “Muitos de vocês, nesta sala, são professores de Literatura, mas não gostam realmente de literatura. Se encomendarem uma mesa a um carpinteiro que por acaso é mexicano-americano, ou marxista, ou homossexual, e ele vos entrega uma mesa com as pernas a cair, vocês devolvem-na e exigem o vosso dinheiro. Mas estão mais do que dispostos a aceitar livros sem pernas. São completamente hipócritas. Há quotas [nos EUA] para mulheres, negros, mexicanos e homossexuais nas faculdades de Direito e Letras, mas não na de Medicina. Sabem porquê? Porque se vocês, os politicamente correctos, estiverem numa mesa de operações para ser operados ao cérebro e a médica que vai fazer a cirurgia for uma negra lésbica devastadoramente atraente — tento ser o mais ofensivo possível — que, explicam-vos, se qualificou com base na sua origem étnica e orientação sexual, todos vocês saltam imediatamente dali para fora”. Começou tudo a gritar comigo. Racista! Fascista! E eu respondi-lhes também aos berros: “Vocês são um nojo, são degradantes. Não têm qualquer argumento racional para opor ao que eu digo. São uns vigaristas. Todos vocês saltavam da mesa de operações”. Foi uma guerra. Mas haverá alguma ideia socialmente mais repugnante do que pretender que é mais benéfico para uma jovem cabo-verdiana que vem viver para Portugal ler obras dos seus compatriotas, por más que sejam, do que Eça ou Almeida Garrett? Outro dia fui falar de cinco dos meus poetas preferidos: Whitman, Pessoa, Lorca, Hart Crane e o maravilhoso Luis Cernuda. São todos homossexuais, mas que me interessa saber se eles preferem dormir com homens ou com mulheres?

Nas listas que acompanham o Cânone Ocidental...
Não tenho nada a ver com essas listas. Tive de as pôr lá, mas já as repudiei há muito. Retirei-as do livro e não aparecem, por exemplo, na tradução sueca ou italiana, embora infelizmente surjam na portuguesa e na brasileira. O meu editor e o meu agente é que se mancomunaram para me convencer de que só assim o livro podia ser publicado. Em protesto, escrevi-as de cabeça, sem consultar nada. E quem se lembra de tudo?

Bom, fazer as listas de cabeça parece consistente com a sua tese de que a crítica canónica corresponde a uma arte da memória.
Pois, mas quando envelhecemos, a memória trai-nos, esquecemo-nos de coisas, inventamos títulos.

Os leitores costumam ter “famílias” de autores. Mas, descontando os nomes mais recentes, as suas listas parecem revelar um leitor estranhamente neutral.
São, de facto, listas neutrais, porque odiei ter de as fazer. Só me perguntava: “Como é que me deixei cair nesta armadilha?”.

Alega que o tempo da vida humana é demasiado curto para se perder tempo a ler má literatura. Mas nunca lê livros sem ambição canónica, um Rex Stout, uma novela de ficção científica?
Não tenho tempo. Escrevo livros, organizo outros, dou aulas, tenho de ver alguns amigos, tenho de falar com a minha mulher. Ela é que lê muitos livros desses, que não são necessariamente maus, mas são... [Janet Bloom responde: “Literatura ligeira”.]

Sim, literatura ligeira. [Janet Bloom exemplifica: “Graham Greene”.] São coisas que entretêm, claro, mas Shakespeare entretém mais.

Mas acha que Greene é um escritor medíocre?
E como é que anda Portugal de dramaturgos?

Creio que não muito bem.
Não apareceu um Calderón ou um Lope de Vega?

Julgo que não.

Artigos relacionados