O sabor da medalha com as trincas de Fernando Pimenta e Emanuel Silva
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A alegria dos portugueses
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Portugal

Como a canoagem passou do anonimato ao pódio olímpico

Uma direcção federativa estável, um seleccionador de nível mundial, um lote ímpar de atletas jovens e melhores condições de trabalho. Estes são, em resumo, os segredos para a canoagem ter passado em pouco mais de oito anos da sombra para os pódios olímpicos.


Depois da grave crise vivida no final da década de 1990, quando chegou a ter o estatuto de utilidade pública suspenso, a Federação Portuguesa de Canoagem reergueu-se. O primeiro ponto de viragem foi o sétimo lugar de Emanuel Silva em Atenas 2004, consubstanciado depois pelo trabalho da direcção presidida por Mário Santos, que em Londres é também o chefe da missão olímpica.

A contratação do polaco Ryszard Hoppe para o cargo de seleccionador nacional, há oito anos, também foi fundamental, já que os atletas portugueses passaram a trabalhar com alguém muito experiente e exigente, já com vitórias olímpicas no currículo.

E, claro, nada se faria sem um lote de atletas de qualidade. Além de Emanuel Silva, que despontou em Atenas e tem agora 26 anos, surgiram canoístas ainda mais jovens e de grande potencial, como Teresa Portela (24 anos), Fernando Pimenta (22) e Joana Vasconcelos (21).

Os resultados não se fizeram esperar e a canoagem portuguesa tem acumulado medalhas em competições internacionais (só em 2010 foram 17). Agora aconteceu o ponto alto, com a prata de Fernando Pimenta e Emanuel Silva na prova de K2 1000 metros em Londres.

O Centro de Alto Rendimento (CAR) de Montemor-o-Velho, onde os atletas vivem uma boa parte do ano, também se revelou decisivo para os bons resultados.

“As condições em Montemor permitem treinar todo o ano, sem problemas. Treinamos duas vezes por dia e os atletas ainda estudam”, disse ao PÚBLICO Ryszard Hoppe, em Julho de 2011, explicando como o CAR o ajudou a implementar os métodos de trabalho praticados pelas melhores equipas mundiais, até porque “os clubes portugueses não têm condições”.

“São os mesmos atletas que antes. A diferença está no sistema de treinos”, acrescentou o técnico, explicando que um dia típico em Montemor-o-Velho começa com treinos "às 6h00 ou 6h30 da manhã, porque há aulas às 9h00”, isto porque considera essencial aliar os estudos à canoagem – Emanuel Silva, por exemplo, estuda enfermagem e Fernando Pimenta saúde.

Hoppe, no entanto, é famoso pela disciplina que impõe aos seus atletas: “"Há treinos todos os dias, de manhã e à tarde, com meio dia de folga à quinta-feira e ao domingo", explicou ao PÚBLICO, em Agosto de 2010.

É certo que a canoagem continua a ser uma modalidade pouco praticada em Portugal – em 2010 havia apenas 2270 atletas federados, praticamente o mesmo número que em 1996 –, mas conseguiu criar uma equipa olímpica de qualidade.

Emanuel Silva foi um dos que desbravaram o caminho: conseguiu a primeira medalha numa prova internacional em 2002, com apenas 16 anos, quando foi terceiro em K1 1000m no Europeu de Juniores. No ano seguinte sagrou-se campeão (K1 500m) e vice-campeão (K1 1000m) mundial júnior. "Com esses resultados, os atletas mais novos viram que, se eu consegui, por que não eles também conseguirem? A partir daí houve mais dinâmica por parte dos clubes”, explicou ao PÚBLICO em 2010, deixando elogios aos seus colegas.

“Os canoístas portugueses são super-heróis, superam-se e fazem tremer as equipas mais fortes, que começam a ter-nos respeito", dizia o canoísta olímpico, que confirmou na prática as suas palavras.

Quem também viu as expectativas confirmadas foi Ryszard Hoppe, que passou os últimos dois anos a garantir que os seus atletas iam a Londres para ganhar medalhas. Acertou e a modalidade que até agora evoluiu sozinha – sem as atenções mediáticas do futebol de Cristiano Ronaldo, do atletismo de Nélson Évora ou do judo de Telma Monteiro – saltou para a ribalta. A canoagem é de prata.

Notícia actualizada às 17h09

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