Ye Shiwen foi uma das figuras da China na natação
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Jiao Liuyang venceu os 200m mariposa
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Opinião

Porquê os chineses? Por que não os portugueses?

Perante os resultados da participação nacional nestes Jogos Olímpicos, muitos se interrogarão por que razão são os chineses e não os portugueses que, agora e quase do nada, desafiam as potências olímpicas.


Logo os chineses, que foram trazidos para o mundo moderno exactamente pelos navegadores portugueses... Porque será? Porque será que Portugal não consegue ser uma potência desportiva, a não ser esporadicamente ou em nichos muito particulares? Será que é por sermos pouquinhos? Mais pequeninos? Mais ocidentais?

Não! Não é por sermos menos (quantos são os suíços, ou os holandeses e outros tantos?) e menos altos. Nem é por sermos muito ocidentais, já que de há muito se sabe que a Terra é redonda. Também não é por sermos brancos, pretos, amarelos ou vermelhos, porque somos uma mistura saudável, cega de cores.

Portugal não é uma potência desportiva porque não o é em nada! Porque não nos levamos a sério e muito raramente nos entregamos de alma e coração ao que temos por diante - eu diria: porque não temos cultura e educação desportivas! Talvez sejamos sobretudo bons a encontrar desculpas para não sermos tão bons assim.

Todos ficamos positivamente surpreendidos com o que tem de suportar o quotidiano de um campeão português, mas isso parece não chegar, por muito respeito que mereça. Tem, na maioria dos casos, de se suportar mais ainda e sem se ser pago principescamente. Tem de se aprender a lutar, a perder, a porfiar, a confiar, a esperar, a chorar... a desesperar e, até, a ganhar. E esta aprendizagem não é espontânea, tem de ser catalisada por uma educação capaz: uma educação em que o Estado e as famílias percebam o que é que é efectivamente crítico.

E é isso que nos falta: uma verdadeira educação, que inclua uma forte educação desportiva dos nossos jovens concidadãos (que os japoneses, por exemplo, têm por natural desde antanho). Para que aprendam a trabalhar duro, mesmo que para perder muitas vezes, mas de cabeça erguida, e a ganhar algumas sem soberba, respeitando o outro e a si próprio. É isso que o Estado tem de valorizar se quer mais cidadãos na elite mundial desportiva e nas muitas elites mundiais que não do desporto.

É esse o valor educativo do desporto! Foi esse o valor que alguém quis enaltecer com a modernidade (tardia) da Educação Física e o desporto escolar e foi esse valor que, aqui e ali, na escola e na família, foi comprometido pela tentação ("pós-modernista"?) dos facilitismos pedagogicistas então já fora de moda, disfarçados de uma quase séria "centração-no-aluno" e "protecção da criança".

É exactamente esse valor que o senhor ministro da Educação, ao invés de valorizar, quer agora arrumar de vez ao deixar "isso da ginástica" à consideração de cada escola e sem valor relevante na expressão final do empenho dos jovens. Não podemos querer modernizar-nos e, ao mesmo tempo, "aparolarmo-nos" com retrocessos destes! Temos é de corrigir desvios do esperado e continuar a lutar para que todas as famílias percebam que a educação desportiva dos filhos é muito mais do que o combate à obesidade; é a saga pela construção de homens a sério, já que a capacidade de dedicação, sofrimento, respeito e perseverança, necessários para se ser um ás, até na matemática, consegue-se também, ou sobretudo, pelo desporto! Que se invista na educação desportiva de forma séria e partilhada por todos e talvez possamos vir a ser "os chineses de amanhã", no desporto e também na matemática (se possível sem o que de pejorativo esta imagem possa comportar para os mais chauvinistas).

João Paulo Vilas-Boas é professor catedrático da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

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