Marisa Monte foi uma das presenças brasileiras em palco no estádio olímpico de Londres
Foto: Gary Hershorn/Reuters

O logótipo do Rio de Janeiro 2016
Foto: Thomas Coex/AFP

Os tons de verde e amarelo no fim dos Jogos de Londres
Foto: David Eulitt/MCT

O Rio espera pelos atletas olímpicos, incluindo Phelps (que anunciou o fim de carreira)
Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Fim de festa

O Rio de Janeiro foi a Londres receber os Jogos com "Aquele Abraço"

O desfile de música pop que encerrou os Jogos de Londres, domingo à noite, no estádio olímpico, terminou com sons brasileiros, que marcaram a pauta da próxima Olimpíada (ou ciclo olímpico de quatro anos) – tantos quantos o Rio de Janeiro tem para se preparar para os Jogos de 2016.


Talvez o mais expressivo dos ritmos sul-americanos que se ouviram na cerimónia de três horas que marcou o fim de Londres 2012 tenha sido o de uma música de Gilberto Gil, “Aquele Abraço”, interpretada em palco pelos convidados especiais Marisa Monte e Seu Jorge e o rapper BNegão. E se a rainha de Inglaterra primou pela ausência nas bancadas de um estádio repleto de gente e cor, a embaixada brasileira não dispensou o “Rei” – Pelé, antigo jogador de futebol, o melhor de sempre (dizem), foi ao relvado mandar “Aquele Abraço” em todas as direcções, enquanto os músicos continuavam a cantar que “o Rio de Janeiro continua lindo”.

É para essa cidade, que uns apelidam de “carioca” e outros de “maravilhosa”, que os olhos se viram agora. Com 6,3 milhões de habitantes na sua área metropolitana, o Rio promete mudanças, mas não se vai transformar no paraíso, diz o prefeito, Eduardo Paes, que no domingo recebeu a bandeira olímpica, com os cinco anéis, das mãos do presidente do Comité Olímpico Internacional, Jacques Rogge – e que por sua vez tinha recebido o estandarte do "mayor" londrino, Boris Johnson. “Não é que a gente vá ser perfeita no fim dos Jogos de 2016”, avisa Eduardo Paes, em declarações reproduzidas pela BBC. “O Brasil tem muito caminho pela frente, o Rio também, mas a cidade será mais justa, mais igualitária, e mais integrada após os Jogos”, prometeu.

Como preparar uma cidade?

Levar os Jogos até ao Rio significará – como sempre nos Jogos – reunir as nações, o desporto, mas também significará muitas mudanças para um grande país e uma grande cidade.

As questões que se levantam, a quatro anos de distância, são muitas, a começar pelas capacidades do transporte público: a cidade tem duas linhas de metro e nenhuma delas chega actualmente ao local onde vai ficar o Parque Olímpico. "O Brasil não é um país rico, o Rio não é uma cidade rica, a nossa lógica é: qual é o legado para a cidade?", resumiu o autarca, numa conferência de imprensa, na semana passada, na véspera do dia em que ficaram a faltar quatro anos exactos para a abertura dos Jogos de 2016.

Como a repórter do PÚBLICO, Alexandra Lucas Coelho, no Rio de Janeiro, relatou, as ligações entre o aeroporto, a Barra da Tijuca e áreas mais pobres da Zona Oeste serão melhoradas com o projecto BRT, quatro linhas de autocarros rápidos em faixas exclusivas, alguns já a funcionar. Numa cidade em que o trânsito ficou caótico e os transportes públicos são maus ou ausentes, a questão da mobilidade é o principal desafio dos Jogos, dizem os organizadores, e deve ser um dos maiores legados. "A BRT são 150 km de vias que vão impactar a vida dos cariocas", resumiu Maria Silvia, a "superexecutiva" captada para a Empresa Olímpica Municipal. Espera-se que depois de 2016 o uso de transporte público passe de 20% para 60%. Entretanto, as ciclovias devem crescer de 300 para 450 km.

A questão do legado coloca-se sempre quando se planeia – ou quando termina – uma grande competição internacional. Portugal ainda hoje olha para os estádios e demais infra-estruturas feitas a propósito do Campeonato Europeu de Futebol 2004; no Rio, é dado como certo que o Parque Olímpico será transformado, após 2016, num centro de treino de alta competição. "Todas as instalações já têm legado futuro", garantiu o director do comité local de organização dos Jogos de 2016, Leonardo Gryner. Incluindo o campo das competições de golfe, que passará a ser o primeiro público do Brasil.

E como estão as coisas? "Estamos no progresso total do projecto", resumiu Gryner, há uma semana: o Rio está a cumprir os prazos para 2016 e os grandes investimentos feitos vão transformar a cidade para além dos Jogos (transportes públicos, infra-estruturas, áreas verdes, rede hoteleira, recuperação de zonas históricas, criação de novos bairros).Antes dos Jogos, o Brasil será anfitrião do Campeonato do Mundo de futebol em 2014, altura em que algumas das ideias e projectos da organização brasileira enfrentarão um período de testes que poderão dar indicações úteis para 2016.



As lições de Londres

Londres 2012 deu lições que o Rio de Janeiro pode e deve aproveitar. A começar pelo sistema de venda de bilhetes, que gerou um aceso debate, pontuado por muitas críticas, devido ao facto de haver muitos lugares vazios nalgumas competições, apesar de a organização dizer que os bilhetes estavam esgotados.

De acordo com Jacques Rogge, este será “um dos temas a rever para o Rio de Janeiro”, disse o líder do Comité Olímpico Internacional, citado pela Reuters, no domingo à noite.

Outro exemplo de Londres é pela positiva e prende-se com o aproveitamento das infra-estruturas após os Jogos. Isto porque muitas das estruturas montadas são temporárias: dos 745.100 lugares disponibilizados nos 34 palcos que serviram todas as competições, 257 mil serão desmontados, evitando-se assim os investimentos em “elefantes brancos” difíceis de ocupar e rentabilizar quando os dez mil atletas de uns Jogos se vão embora e a chama olímpica se apaga. “Londres 2012 assinala o fim da praga dos elefantes brancos”, afirma nesta segunda-feira, a este propósito, a agência Reuters.

A chama de Londres apagou-se após um espectáculo mais musical do que teatral – como tinha sido o da inauguração –, que foi um desfile "pop" e "rock" britânico com Pet Shop Boys, George Michael, Annie Lennox, Madness e Kaiser Chiefs, as regressadas Spice Girls, Brian May e Roger Taylor (dos Queen) e The Who, bem como uma reunião especial dos Take That. Além deles, houve a interpretação de “Always Look on the Bright Side of Life”, um clássico dos Monty Python, por Eric Idle, que trouxe para a ribalta um pedido para que o mundo olhe sempre para o que de positivo a vida tem para oferecer.

Pouco depois, a embaixada do Rio de Janeiro recebeu a missão nada fácil de fazer melhor com “Aquele Abraço” e debaixo das palas do estádio iluminadas a verde e amarelo. Apresentada a pauta, falta a factura – o COI disse no domingo que quer ver o orçamento de Rio 2016. “Queremos ter os números prontos assim que possível”, disse Rogge antes da cerimónia. Londres 2012 custou 14,1 mil milhões de dólares (11,5 mil milhões de euros). A primeira cidade sul-americana a organizar uns Jogos mantém para já o segredo sobre os seus custos. “Não podemos dar um custo total porque alguns projectos ainda estão por definir”, disse o prefeito do Rio, Eduardo Paes.

Artigos relacionados