<p>Jessica Ennis (heptatlo) ganhou uma das 29 medalhas de ouro da Grã-Bretanha</p>

Jessica Ennis (heptatlo) ganhou uma das 29 medalhas de ouro da Grã-Bretanha

Foto: Pawel Kopczynski /Reuters
Grã-Bretanha

O dinheiro ajuda a comprar medalhas

Os Jogos de Londres 2012 provaram a equação que já é verdadeira desde Barcelona 1992: o país organizador tem enorme sucesso desportivo. E a Grã-Bretanha foi um grande sucesso desportivo. Foi o terceiro país com mais títulos olímpicos (29), atrás de EUA (46) e China (38), e o Governo britânico vai manter o financiamento para o desporto de alto rendimento.


Foram 500 milhões de libras (636 milhões de euros) para o ciclo que agora terminou e David Cameron irá, pelo menos, repetir esse valor. Comparar o investimento desportivo britânico com o português é impossível, mas a conclusão é óbvia: o dinheiro compra o sucesso.

Para um investimento de cerca de 15 milhões de euros para este ciclo, Portugal teve o retorno desportivo em Londres de uma medalha de prata, a de Emanuel Silva e Fernando Pimenta na canoagem, modalidade que recebeu apoios de 615 mil euros, excluindo as bolsas de preparação olímpica dos atletas - Silva e Pimenta receberam 120 mil euros neste último ciclo. Ainda assim, foi, de longe, a melhor modalidade de Portugal em Londres, com uma medalha e mais três finalistas. Uma modalidade de topo na Grã-Bretanha, como o ciclismo (12 medalhas), recebe mais de 25 milhões de libras a cada ciclo.

O dinheiro investido na preparação olímpica portuguesa parece irrisório quando comparado com o exemplo britânico - a Team GB teve 542 atletas nos Jogos de Londres, Portugal teve 77 -, mas a verdade é que as verbas dedicadas aos projectos olímpicos têm crescido nos últimos cinco ciclos. Para Atlanta 1996, entre apoios às federações e apoios à própria missão, foram concedidos apoios financeiros de 6,1 milhões de euros, um valor que aumentou para 9,5 milhões no projecto Sydney 2000. Novo grande salto aconteceu para Atenas 2004, com 11,9 milhões, uma verba quase igual à do ciclo Pequim 2008 (12,1 milhões). O que faz com que os apoios para Londres tenham crescido em três milhões.

Dividindo o investimento pelo número de medalhas, esta foi a medalha mais cara da história olímpica portuguesa. Quinze milhões resultaram em apenas uma. Em Pequim, as medalhas de Nelson Évora e Vanessa Fernandes custaram cerca de seis milhões cada uma. Em Atenas, as três medalhas obtidas (Francis Obikwelu, Sérgio Paulinho e Rui Silva) custaram 3,97 milhões cada. Na relação custo/diploma, o investimento público em Pequim foi de 1,73 milhões de euros por cada um dos sete, enquanto em Londres esse valor desceu ligeiramente para 1,67 milhões (nove diplomas).

"Sistema obsoleto"

"Portugal é o que aqui se espelhou e nos dois Jogos Olímpicos anteriores. Dinheiro faz sempre falta, mas estes resultados não se devem apenas às dificuldades de financiamento. O sistema desportivo em Portugal está obsoleto. Se não quisermos ser irrelevantes, temos de mudar o paradigma", dizia anteontem Vicente Moura, que vai abandonar a presidência do Comité Olímpico de Portugal (COP) em Março do próximo ano.

O ainda líder do COP tem defendido um sistema diferente na gestão das verbas de preparação olímpica, por exemplo, no que diz respeito ao pagamento das bolsas aos treinadores dos atletas. Vicente Moura pretende que as verbas sejam pagas directamente aos próprios pelo Comité Olímpico e referiu o caso de Mark Emke, do remo, como um exemplo a não repetir - o técnico holandês somou seis meses de salários em atraso.

Vicente Moura defende ainda que o COP pague as bolsas directamente aos atletas que integram o projecto Esperanças Olímpicas, em vez de canalizar essas verbas para as respectivas federações. Tudo propostas a serem discutidas em breve.