Qieyang Shenjie nasceu no Tibete e ganhou uma medalha de bronze para a China
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A atleta no pódio
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Atletismo

O dia em que os tibetanos vibraram com uma vitória da China

A prova dos 20 km marcha nos Jogos Olímpicos ficou marcada pela vitória de Elena Lashmanova. Os títulos das notícias não podiam escapar a esse feito: a atleta russa foi medalha de ouro e bateu o recorde mundial. Mas um pouco mais atrás, mais precisamente 14 segundos, chegava uma atleta que se tornou notícia por três motivos: pela medalha de bronze e pelo novo recorde asiático, mas também porque, mesmo a correr com as cores da China, é agora a nova heroína do povo tibetano.


Um grupo de tibetanos no exílio a incentivar uma atleta com as cores da China não é algo que se veja todos os dias, mas foi isso que aconteceu ontem, nos arredores do Palácio de Buckingham, em Londres. Numa imagem ainda mais rara, descrita pela agência de notícias Associated Press, tibetanos e chineses gritavam pela atleta que durante uma hora, 25 minutos e 16 segundos uniu o que a política tem separado.

A diferença estava apenas na forma como se expressavam. Da boca dos chineses saía "Jia You!", os tibetanos gritavam "Gyuk!". Depois da tradução, o resultado era o mesmo: qualquer coisa como "Força!" Apesar da breve união pela voz, chineses e tibetanos no exílio mantiveram-se afastados fisicamente, cada grupo com a sua bandeira, sem trocas de olhares.

O feito da chinesa Qieyang Shenjie – que os tibetanos conhecem como Choeyang Kyi – foi importante para ambos os lados: uma medalha para a China e a primeira atleta olímpica nascida no Tibete.

No final da corrida, Qieyang Shenjie – ou Choeyang Kyi – estava feliz com a medalha de bronze e o novo recorde asiático para a China e "honrada" por ter representado os tibetanos. "Estou muito honrada por ter sido a primeira representante dos tibetanos nos Jogos Olímpicos e por ter ganho uma medalha", disse a atleta à AP.

"Eu ouvi-os! A sério, ouvi um tibetano a apoiar-me. Ainda olhei para trás, mas não consegui vê-lo", disse ainda.

Um deles foi Ugyen Choephell, que nasceu na Índia após os seus pais terem fugido do Tibete na década de 1960. "Estou a apoiar o Tibete ou a China?", questionou-se. Naquele momento, não era coisa que o incomodasse: "Choeyang Gyuk!" O tibetano só sabia o que sentia: "Isto é maravilhoso. Muito emocionante. Está a fazer-se história."

"Estamos tristes por ela não poder representar o Tibete"

Afirmar-se que Qieyang Shenjie é a primeira atleta olímpica nascida no Tibete não é bem uma questão de fé, mas a verdade é que não há informação suficiente para ter a certeza. Não há registos que possam ser consultados, mas a agência oficial chinesa Xinhua garante que é verdade; o historiador de desporto Bill Mallon, ouvido pela Associated Press, confirma; e o governo do Tibete no exílio não desmente.

"Desejamos-lhe toda a sorte, como indivíduo", disse Dicki Choyang, responsável pela informação e relações internacionais da administração tibetana no exílio. Com uma ressalva: "Deve ter-se esforçado muito para ter chegado aqui. Mas estamos tristes por ela não poder representar o Tibete."

O responsável aproveitou para lembrar a luta do seu povo: "A China usa este tipo de coisas para ter ganhos políticos. O facto de uma atleta tibetana estar nos Jogos Olímpicos não altera em nada a terrível situação que se vive no Tibete", afirmou Dicki Choyang.

Inscrita no Partido Comunista chinês em Julho

Qieyang Shenjie tem 21 anos de idade e nasceu na actual província chinesa de Qinghai. Em conversa com jornalistas chineses no final da corrida, disse que o seu nome tibetano significa "Sol" e que recitou uma oração budista antes do início da prova.

A conversa com os jornalistas chineses foi longa, mas a atleta fez questão de escapar às questões mais difíceis. Por exemplo, disse que não conhece nenhuma canção tibetana. Mas salientou que a sua família não tem uma vida fácil. Ainda assim, inscreveu-se no Partido Comunista da China em Julho, pouco antes de partir para Londres.

Para os tibetanos no exílio foi um dia de emoções contraditórias, mas a verdade é que a medalha de bronze de Qieyang Shenjie – ou Choeyang Kyi – foi mais uma oportunidade para ver a sua causa nas notícias.