<p>Nélson Évora foi o último atleta nacional a colocar a bandeira portuguesa no mastro olímpico mais alto</p>

Nélson Évora foi o último atleta nacional a colocar a bandeira portuguesa no mastro olímpico mais alto

Foto: Adrien Dennis/AFP
As figuras

Nélson Évora: O "salto kamikaze para o infinito"

Nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, Nélson Évora era um jovem de 20 anos ainda a ver como eram os grandes palcos do desporto mundial. A sua qualificação no triplo-salto não ficou para a história, 15,72m, o 40.º em 48 participantes, numa prova que seria do sueco Christian Olsson, com 17,79m.


Évora era um membro entusiasta da comitiva, daqueles que ia às provas dos colegas e torcer por eles com bandeira e tudo. Quatro anos depois, em Pequim, Évora já não era saltador de fim da tabela. Antes pelo contrário. Era o campeão do mundo e juntaria a esse título o ouro olímpico.

A luta pela medalha no Ninho de Pássaro, como era conhecido o magnífico Estádio Olímpico de Pequim, era assumida, sustentada na exibição em Osaka no ano anterior, com um título mundial e um magnífico recorde nacional (17,74m). Évora estava num lote alargado de favoritos numa disciplina que não tinha um rei fixo desde que o britânico Jonathan Edwards se retirara. Como sempre, os cubanos estavam na linha da frente, tal como o romeno Marian Oprea, ou o gigante brasileiro Jadel Gregório.

Mas quem mais se assumia como favorito era o desbocado de cabelo vermelho Phillips Idowu, que não tinha engolido muito bem a derrota no ano anterior em Osaka - nem sequer foi às medalhas. "Sinto-me o Super- homem. Acho que ninguém me vai parar. Sou à prova de bala. Há sempre gente que aparece em ano olímpico, mas acho que ninguém vai aparecer", dizia um superconfiante Idowu antes da prova. Évora, por seu lado, estava confiante nas suas possibilidades e não acreditava em vencedores antecipados: "O estado de confiança que ele tem mostrado pode ser contraproducente. Vou fazer um salto kamikaze e saltar para o infinito."

Na qualificação, a primeira batalha foi para Idowu, 17,44m logo no primeiro salto e o britânico já nem fez os outros dois a que tinha direito. Évora fez 17,34m ao segundo ensaio e também já não fez o terceiro salto. Três dias depois, na final a 21 de Agosto, foi um emocionante jogo de perseguição entre o português e o britânico. Évora abriu a 17,31m, Idowu respondeu com 17,51m. O português acrescentou 25 centímetros à sua conta no segundo salto (17,56m), Idowu chegou aos 17,62m no terceiro e Leevan Sands, das Baamas, tem um terceiro ensaio a 17,59m, enquanto Évora fazia um nulo e descia para terceiro.

Os oito melhores passam aos três últimos saltos e o português inicia a segunda metade do concurso perto do tal "salto kamikaze para o infinito", 17,67m. Como nem Idowu nem Sands melhoraram as suas marcas, é Évora quem festeja.

Nuns Jogos em que tinha sido o porta-estandarte da comitiva e depois das desilusões de Naide Gomes e Francis Obikwelu, Évora tornou-se no quarto campeão olímpico da história do desporto português, depois de Lopes, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro. Mas não chegou aos míticos 18 metros, uma marca só ultrapassada por dois homens, o norte-americano Kenny Harrison e o britânico Jonathan Edwards. E não será em Londres que o irá fazer, porque uma lesão impede-o de defender o seu título. Terá 32 anos nos Jogos do Rio de Janeiro em 2016. Ainda vai a tempo do "salto para o infinito".