A liberdade do artista e dos seus críticos


Há duas semanas, recebi uma mensagem de uma amiga que perguntava de rompante: “o que achas deste vídeo?” Era óbvia a indignação. Segui o link e vi um videoclip musical que retratava uma situação de brutal violência doméstica. Via-se um homem a surpreender a mulher na cama com o melhor amigo, ameaçando-a com uma caçadeira, enfiando-lhe mesmo o cano da dita na boca, insultando-a da forma mais obscena que se possa imaginar. No fim, quando tudo parecia não passar de um pesadelo, descobrimos o amante escondido no guarda-fatos, sugerindo que, afinal, a mulher era mesmo uma falsa e uma traidora e que tinha o que merecia.

O autor chama-se Valete e nunca tinha ouvido falar nele. Esse meu desconhecimento, obviamente, caracteriza-me a mim e não ao Valete. Ser anónimo para mim não faz dele um artista irrelevante, faz de mim, isso sim, um ignorante. Até porque, disseram-me amigos que tenho em grande conta, será um bom músico. Era óbvia a polémica que se seguiria e assim foi.

Nas redes sociais, choveram críticas, dizendo que se estava a banalizar a violência doméstica, que a mulher era tratada como propriedade do homem, que um vídeo tão leviano era inadmissível num país com tantos problemas dessa natureza como o nosso, etc. Não participei no coro de críticas. Não gostei nem da canção nem da poesia subjacente e considerei o vídeo de muito mau gosto. Mas não era o lado estético que gerava controvérsia. Era o lado ético e moral. E, nesse assunto, tenho muito mais dificuldades em ser acusador. Arte que ofende a moral reinante é essencial. Foi assim com Oscar Wilde, que respondeu às críticas de que foi alvo com uma série de aforismos que incluem “um livro moral ou imoral é coisa que não existe; os livros são bem escritos, ou mal escritos; e é tudo” ou “nenhum artista tem simpatias éticas; uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável”. Antes de Valete, muitos músicos nos EUA foram criticados e atacados pela direita americana por promoverem a violência contra os polícias, a criminalidade, etc. E estas polémicas não se atêm à música. Por exemplo, quando publicou Psicopata Americano, o escritor americano Bret Easton Ellis foi atacado por feministas que o viram como uma explosão de violência misógina sob a forma de literatura.

De qualquer forma, a crítica faz parte da vida de um artista e, como disse também Wilde, “quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo”. Pelo que considerei a polémica normal e não lhe dei demasiada importância. Até porque não tinha havido quaisquer apelos a que o vídeo fosse censurado. Ainda assim, foi sem surpresa que o assunto chegou aos jornais, primeiro por Fernanda Câncio, de quem sou amigo, no DN de 18 de Setembro, e depois por Mário Lopes, no PÚBLICO de 21 de Setembro.

O que me surpreendeu verdadeiramente foi o que se passou daí para a frente. Aí sim, pôs-se em causa os limites da liberdade de expressão. Primeiro, foi Fernanda Câncio que no seu blogue escreveu um post em forma de notícia, dizendo que Valete a tinha ameaçado para que se contivesse nas críticas que lhe fazia no Twitter. Nas SMS que o músico lhe enviou, escreveu: “Estás avisada, não te aviso segunda vez” e “se vacilares, vou provar bem rápido que não ameaço em vão”. Nessa “notícia”, Câncio relata ainda que há outro homem que alega ter sido ameaçado por Valete: “tás avisado. vou-te dar 2 cabeçadas pa aprenderes a não ser espertinho. que a minha mãe morra se eu não te deixar ensanguentado.” Uma reacção tão estúpida que até custa a acreditar que seja uma pessoa inteligente. Ao mesmo tempo que, em público, acusava quem o critica de ser a nova PIDE — PIDE feminista — e de não respeitar a liberdade de expressão, em privado, ia ameaçando (até fisicamente) quem o criticava. Diga-se que Valete desmente ter feito estas últimas ameaças, efectuadas através da sua conta de Instagram, mas as mesmas foram já reafirmadas pelas vítimas, que até já apresentaram queixa.

O mais estranho foi a falta de reacção que se seguiu a partir daí. Sempre que algum artista é criticado pelas redes sociais, logo vem uma enorme contra-reacção, acusando os críticos de não respeitarem a liberdade de expressão. Mas, neste caso, perante uma tão óbvia violação daquela, as redes mantiveram-se mudas. Parece que um artista tem o direito a intimidar os seus críticos.

O passo seguinte foi de Valete, que publicou um vídeo atacando as “feministas burguesas” e reclama para si a defesa das mulheres negras. No meio de muitas inanidades, insulta e difama Câncio e termina declarando-a sua inimiga. É difícil não ver neste vídeo difamatório o cumprimento parcial da ameaça que lhe havia feito uns dias antes. No entanto, o vídeo foi alegremente partilhado por muitos. Ou seja, Valete não só contou com o silêncio cúmplice de muita gente, como teve o apoio explícito de quem tantas vezes se contorce para defender a liberdade de expressão. Chegámos então a este paradoxo: criticar a obra de um artista é um atentado à liberdade de expressão, mas o artista ameaçar os seus críticos é um acto louvável.

De todas as partilhas, a que mais me chocou foi a de Luís Garcia, programador cultural da Câmara Municipal de Évora. Começou por partilhar o vídeo de Valete com as difamações a Fernanda Câncio para depois, quando confrontado com várias críticas, o apagar. Mas fez uma nova publicação, com o clip musical de Valete acusando os seus críticos de eugenia, o que, naturalmente, gerou mais comentários. Depois de uma troca de palavras mais acesa com Alexandra Ferreira, lembrou-a de que também ela tinha esculturas discutíveis e que estavam expostas em Évora por decisão dele. A ameaça velada de que, por sua decisão, podiam deixar de estar expostas era óbvia.

De há uns anos para cá, quando um artista é “linchado” nas redes sociais, é comum dizer que a sua liberdade de expressão é desrespeitada. Na grande maioria das vezes, não percebi a lógica. A liberdade de expressão de um artista é também a liberdade de expressão dos seus críticos. Além do mais, em dois ou três dias, o assunto morre. Claro que quando estas críticas são acompanhadas por apelos à censura, o assunto muda de figura, mas, geralmente, não é esse o caso. E, definitivamente, não foi esse o caso com Valete.

Os bons artistas gostam de risco. Faz parte. E, claro, quando o fazem correm riscos. Quando, há uns anos, Bruno Nogueira disse que “gás era para judeus”, de certeza que sabia os riscos que corria. Se tivessem chovido críticas, teria de as aguentar. O que é um contra-senso é querer calar os críticos com o argumento da liberdade artística. Quando se começa a dar cobertura a quem ameaça os críticos, há um patamar civilizacional que é ultrapassado.

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