O nadador norte-americano Ryan Lochte avança números de "praticantes"
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Hope Solo resume a coisa numa frase: "Há muito sexo [na Aldeia Olímpica]"
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Bastidores

Esqueçam O Sexo e a Cidade, o que está a dar é o sexo na aldeia

A sugestão é deixada pelo jornal americano The Huffington Post: em vez de O Sexo e a Cidade, vamos lá olhar para o Sexo na Aldeia. A olímpica, está bem de ver. A cada quatro anos, o tema dos contactos íntimos entre os habitantes desta comunidade multicultural volta à tona.


Misto de viagem de finalistas e resort de férias, o ambiente nas instalações reservadas aos atletas não podia ser mais convidativo ao despertar de paixões: há visuais e comportamentos para todos os gostos; gente bonita pouco vestida por todo o lado, um sentimento geral de euforia à solta.

Para muitos, a concentração mantém-se até ao final das provas. Outros entram na onda logo que lhes surge oportunidade. E oportunidades não faltam, pelos vistos. A guarda-redes da equipa de futebol feminino dos EUA, Hope Solo, resumiu recentemente a coisa numa frase simples: “Há muito sexo [na Aldeia Olímpica].” E, para que não restem dúvidas, o nadador norte-americano Ryan Lochte avança números: “Eu diria 70 a 75 por cento dos olímpicos.”

Usando a velha expressão utilizada para Las Vegas, é comum ouvir-se que “o que acontece na Aldeia, fica na Aldeia”. Mas, à medida que o sexo se vai tornando um assunto menos tabu e alguns dos que beberam da fonte olímpica vão saindo do activo (desportivo, esclareça-se), as histórias começam a aparecer. Dificilmente saberemos detalhes de Londres 2012 nos tempos mais próximos, mas esperem uns anos... Para começar, com um total de 150 mil preservativos distribuídos pelos organizadores, um recorde olímpico já foi batido.

No seu número de Julho deste ano, a revista ESPN The Magazine recorda a odisseia do atirador norte-americano Josh Lacatos nos Jogos de Sydney 2000. Quando a sua participação acabou, os responsáveis norte-americanos mandaram-nos entregar as chaves do seu bloco de apartamentos e regressar a casa. Mas Josh sabia que o melhor estava para vir e, com a conivência da empregada, sabotou a fechadura. A partir daí, a palavra espalhou-se: havia quartos livres na Aldeia Olímpica.

Lacatos instalou-se no rés-do-chão e, logo na primeira noite, alguns membros da equipa de atletismo dos EUA ocuparam os outros andares. Na manhã seguinte, Josh viu sair, juntamente com os rapazes americanos, toda a equipa feminina da estafeta de 4x100m “de um país com ar escandinavo”. Foi só o início. Na semana seguinte, uma verdadeira multidão de atletas olímpicos passou pela casa do atirador – e era mesmo assim que ficou conhecida, a Shooter’s House – depois de se abastecer no enorme saco desportivo cheio até a cima de preservativos que o compreensivo pessoal médico ia fornecendo. A dado ponto, a realidade atingiu Josh Lacatos em cheio: “Estou a gerir um bordel!”, lembra-se de ter pensado. “Nunca na vida assisti a tal deboche.”

Debaixo das árvores

Nem sempre o pessoal de apoio se limita a uma solidariedade passiva. “Muitos dos voluntários começam a perguntar ‘Como é o teu quarto?’ e eu sei que não é para para ver o quarto. Conversa-se um bocadinho, vamos para o quarto. Caramba... há muitos voluntários e ficam felizes por vos ajudar, quaisquer que sejam as vossas necessidades.” O relato é feito à CNN por um antigo sprinter, que até conquistou ouro numa das suas duas participações em Jogos.

Ele lembra-se de, em Atlanta 96, quando já havia vigilância aérea após uma bomba ter explodido num dos parques olímpicos, ter ido à cafetaria com o seu colega de quarto. As raparigas que lá estavam insinuaram-se de imediato. “Saíam daí a uma hora e queriam saber o que íamos fazer. Íamos para o quarto, explicámos. E elas quiseram dar uma volta connosco.” Na verdade, não chegaram aos quartos. Os helicópteros, recorde-se, andavam por ali com holofotes. “Sem problemas, nós estávamos debaixo das árvores.”

Por isso, quando Hope Solo revela que há sexo na Aldeia ao ar livre, nos jardins e por entre os edifícios, podemos ter a certeza de que a tendência não é de agora. Ou sequer atribuível às hormonas enfurecidas da juventude. Em Sydney, o sprinter que falou à CNN sob anonimato, lembra-se de ter ido ao centro médico para uma massagem. Foi atendido por uma “bela mulher”, que lhe disse para tirar a roupa. “Ó, meu Deus, que corpo! Nunca vi um corpo assim!”, terá ela desabafado. “Então ela fez-me a massagem e eu sabia que alguma coisa aconteceria a seguir. E aconteceu.”Nem sempre existiu esta facilidade de contactos. Veteranos dos anos 70 e 80 do século passado recordam – provavelmente com pena... – um clima bem menos propício ao contacto entre atletas, restritivo na mistura de sexos, complicado em termos de infra-estruturas. A verdadeira revolução sexual olímpica iniciou-se nos Jogos de Barcelona 1992, altura em que muito se comentaram as sucessivas notícias de que os preservativos se esgotavam na Aldeia Olímpica. Hoje, os atletas dormem sozinhos em camas de casal, mas dois por quarto e há quatro quartos em cada apartamento... às vezes com treinadores à mistura. No entanto, uma meia enfiada na maçaneta da porta continua a ser um sinal bem conhecido de que há que respeitar alguma privacidade.

Medalhas por sexo

É muito difícil resistir... mesmo que alguém quisesse. O que não acontece frequentemente. A judoca americana Ronda Rousey, que competiu nos jogos de 2004 e 2008, conquistando uma medalha de bronze em Pequim, explica ao jornal britânico The Mirror como tudo isto é natural. “Uma data de gente bonita, vinda de uma data de países diferentes, na melhor forma física das suas vidas... e todos juntos numa aldeia. O único conselho que posso deixar é: usem preservativo!”

E há tanto por onde escolher... Louras, morenas, asiáticas, africanas, altas, pequeninas. Nadadores, ginastas, jogadores de pólo aquático, sprinters, canoístas. Ser fiel é muito complicado. Que o diga o lançador norte-americano Breaux Greer, que recordou à ESPN The Magazine uma fase particularmente animada da sua presença olímpica em Atenas 2004: todos os dias, era visitado por três mulheres: uma consagrada varista, uma barreirista poderosa que tentava dominá-lo e uma turista escandinava “muito talentosa”. Na qualificação do dardo, ele foi o melhor. Depois, uma lesão no joelho afastou-o da final. “Competi com enorme felicidade. Se encontras alguém de quem gostas e que gosta de ti, o teu mundo fica completo por um segundo e competes bem.”

A Aldeia Olímpica é um local “mágico, de conto de fadas, tipo Alice no País das Maravilhas, onde tudo pode acontecer: podemos ganhar uma medalha de ouro e ir para cama com um tipo mesmo sexy”, resume a ex-esquiadora norte-americana Carrie Sheinberg, agora jornalista, a quem um dia dois elementos da equipa alemã de bobsled propuseram trocar as suas medalhas por favores sexuais. Ela recusou, até porque o namorado também estava nos Jogos de Lillehammer 94 – e também tinha ganho uma medalha.