<p>Rosa Mota, em Seul, depois da vitória na maratona</p>

Rosa Mota, em Seul, depois da vitória na maratona

Foto: DR
As figuras

Rosa Mota: A mulher da maratona

Rosa Mota já tinha estado muito bem em 1984, mas quatro anos depois esteve ainda melhor. Depois do bronze em Los Angeles, não deixou que ninguém fosse mais rápida do que ela na maratona de Seul. A vitória da portuense foi apenas a segunda para Portugal na história dos Jogos Olímpicos, seguindo-se ao sucesso de Carlos Lopes, também obtido na segunda distância mais longa do atletismo.


Disputada em condições difíceis - à partida, a percentagem de humidade era de 92% -, a maratona feminina de Seul decorreu de forma diferente da de Los Angeles, na qual a vencedora Joan Benoit correu isolada desde o primeiro quarto de hora da prova. Na capital sul-coreana, ainda eram 12 as candidatas ao triunfo na passagem ao 25.º quilómetro. Cinco quilómetros depois, o grupo da frente já era menor, mas ainda assim constituído por quatro elementos: Rosa Mota, campeã mundial no ano anterior, a australiana Lisa Martin, que terminaria em segundo a 13 segundos da portuguesa, a alemã do Leste Katrin Dörre, terceira, e a soviética Tatiana Polovinskaia. Perto dos 39km, mais ou menos no ponto predeterminado com o seu treinador, José Pedrosa, Rosa Mota, que tinha imposto o andamento, conseguiu finalmente realizar um ataque decisivo e fugir às suas adversárias. "O Pedrosa tinha-me recomendado que, aos 38 quilómetros, se ainda fosse acompanhada, olhasse para ele. Olhei e ele disse-me "Rosa, é agora ou nunca", e eu fui-me embora...", disse após a corrida.

O segundo ouro de Portugal poderia, no limite, ter sido o primeiro de Macau. A participação de Rosa Mota esteve em risco por um desacordo com a Federação Portuguesa de Atletismo, que a suspendeu por faltar a uma prova para a qual tinha sido seleccionada, e a atleta chegou a considerar a hipótese de representar a antiga colónia portuguesa.

O triunfo em Seul foi o mais importante de um currículo que pode ser considerado o melhor de todas as maratonistas da história. A antiga atleta é a única que já se sagrou campeã da maratona em Europeus, Mundiais e Jogos Olímpicos. Para começar, venceu logo a primeira que correu, com umas sapatilhas oferecidas por Carlos Lopes, no Campeonato da Europa de 1982 - também a primeira maratona feminina realizada numa grande competição internacional -, apesar de a federação portuguesa a ter tentado dissuadir de participar por temer a dureza de uma prova tão longa. E renovou o seu título europeu nas duas edições seguintes, em 1986 (Estugarda) e 1990 (Split). Mais nenhum maratonista, homem ou mulher, ganhou mais do que duas vezes a maratona numa daquelas três competições.

A estreia da maratona feminina nos Jogos Olímpicos aconteceu em Los Angeles, em 1984, depois de uma luta de vários anos das mulheres pela igualdade no atletismo, e também então Rosa Mota teve êxito, tornando-se a primeira mulher portuguesa a conquistar uma medalha olímpica, sendo apenas superada nessa corrida pela campeã Joan Benoit e pela norueguesa Grete Waitz, que nunca tinha perdido uma maratona que tivesse concluído.

Mas não foi só em grandes campeonatos que se celebrizou. Conquistou várias das melhores maratonas mundiais, como as de Boston, Londres, Chicago, Tóquio, Roterdão e Osaka. Na de Boston, a maratona anual mais antiga do mundo, foi a mais rápida nas três vezes que participou. A "menina da Foz" ganhou 14 das 21 maratonas que disputou, terminando no pódio mais três vezes, além do quarto lugar no Campeonato do Mundo de 1983.

O seu prestígio internacional ficou comprovado quando foi convidada para transportar a chama olímpica em Atenas, antes dos Jogos Olímpicos disputados na Grécia, em 2004. Nada mau para alguém que até gostava mais de natação e ciclismo, mas que acabou por se dedicar ao atletismo por ser uma modalidade mais barata.