As figuras

Fernanda Ribeiro: A corrida que nunca se ganha daquela maneira

Depois de ter vencido dias antes os 5000 metros femininos, Wang Junxia parecia destinada a fazer a inédita dobradinha em Atlanta (Estados Unidos da América) quando tomou a liderança isolada dos 10.000m na última volta. Mas, num dos finais mais emocionantes da distância em Jogos Olímpicos, Fernanda Ribeiro "cerrou os dentes", encurtou a diferença e ultrapassou a chinesa na recta final. Depois de Carlos Lopes e Rosa Mota, Portugal tinha outra medalha de ouro. "Foi a corrida da minha vida", repetiu muitas vezes a atleta de Novelas (Penafiel).


Mas esteve quase para ser a corrida de Junxia. A começar pelo facto de a sua principal adversária na dupla légua ter tido em risco a participação nos Jogos do centenário. Fernanda Ribeiro teve muitos problemas nos tendões de Aquiles e, quatro meses antes do início do evento, um médico chegou a dizer-lhe que a sua carreira tinha terminado. Ainda assim, a portuguesa chegou aos EUA com aspirações a conquistar uma medalha, mas sem a aura de invencibilidade que rodeava Junxia, que até então nunca tinha perdido uma corrida de 10.000m. Olhando apenas para as suas marcas, a chinesa, uma das primeiras atletas a integrarem o Salão da Fama da Federação Internacional de Atletismo, foi uma das melhores fundistas de todos os tempos. Ainda é a actual recordista mundial dos 10.000 e dos 3000m, com tempos assombrosos que lançaram suspeitas sobre o possível uso de doping. Em 1993, bateu o recorde mundial dos 10.000m, tirando 42s ao anterior máximo, e até hoje ainda ninguém se aproximou a menos de 22 segundos desse tempo.

O valor da concorrência engrandece o resultado de Fernanda Ribeiro. A portuguesa foi a última a descolar depois de um ataque forte de Junxia, mas, a 250 metros da meta, parecia que teria de se contentar com o segundo lugar. "Quando a chinesa Wang Junxia foi embora, pensei que já tinha perdido a medalha de ouro, mas que ficava com a de prata", explicou à Lusa em 2009. Mas a ponta final da então recordista mundial dos 5000m foi brilhante e fez saltar dos sofás os muitos portugueses que acompanharam a prova naquela madrugada de 3 de Agosto de 1996. Ribeiro cortou a meta com menos de um segundo de vantagem sobre a asiática, com o tempo de 31m01,63s, um dos 17 recordes olímpicos de atletismo batidos em Atlanta.

"Ninguém acreditava que nos últimos 100 metros podia chegar ao ouro. Nos 10.000 nunca se ganha da maneira como eu ganhei", sublinhou a atleta que acumulou o maior número de medalhas internacionais do atletismo português.

Junxia terminou a carreira após a competição, com apenas 23 anos, enquanto a corredora lusa, que quando garantiu o título em Atlanta era também a vigente campeã europeia e mundial da distância, engrandeceu o seu currículo olímpico quatro anos depois, em Sydney, quando conquistou a medalha de bronze, também nos 10.000m. Dessa forma, juntou-se ao cavaleiro Luís Mena e Silva e aos atletas Carlos Lopes e Rosa Mota no grupo dos portugueses com dois pódios olímpicos. Esta sua segunda medalha foi mais inesperada, até para a própria, que precisou que Manuela Machado e Ana Dias regressassem à aldeia olímpica para buscar o seu traje oficial para a cerimónia do pódio.