Opinião

Primeira pessoa do plural

Joana Amaral Cardoso

Sim, de dois em dois anos o futebol corporiza-se. Não há motivo para vergonhas. Durante este interregno, não há interregno. Mesmo sem uma atenção firme ao futebol de clubes. O futebol cresceu comigo. Vai comigo à praia pelo mundo, almoçamos juntos ao fim-de-semana e tempera-me os jantares.

Já não sei, como em tempos (circa 1996/8), que aos 70/80 minutos era certinho que Figo era substituído por Giovanni ou De la Peña no Barça, nem sei a média de assistências de Totti e muito menos onde pára o Maradona dos Cárpatos (Hagi para os amigos).

E já não me lembrava de como agradeci a Ronaldo (o Fenómeno) por ter jogado com o joelho alegadamente em ruínas na final com a França em que me distraiu no hospital, mesmo sem bater Zidane. Nem acho que o Magnusson ou o Nené são amigos da família. Mas ainda há um átomo que conhece Ronaldo e Nani desde pequeninos. E por tudo isto, ver o Europeu é ter sentimento de pertença, é integrar um momento da cultura de massas cujos consumos muitas vezes rejeito. É appointment viewing à antiga, aquelas coisas que não dá para gravar, uma âncora dos velhos média e a uma estranha forma de vida.

Durante as últimas três semanas, fomos plurais. "Não podemos encolher-nos" frente à Holanda; "Estamos a fazer um grande jogo" contra a República Checa; "Vamos!" parar Espanha. Plurais descarados. E a cada dois anos, é como ver aquele musical que sabemos de cor mas que em vez de Audrey Hepburn temos outra actriz a tentar cantar as mesmas letras. Se partirmos de uma espécie de primeiro disco como foi 2004 (o sentimento de pertença sob o efeito de esteróides, uma hipérbole em forma de bandeira), o segundo não foi tão bom (tradicional drama de uma banda) e ficou bem longe da fase Beatles (Eusébio, 1966); mas também não fez estragos como a era Springsteen (Saltillo, anos 1980), nem roçou os terrenos do gangsta rap (João Pinto e seu indelével afago ao árbitro); e depois houve o momento Carlos Queiroz, que prometia ter um feeling (que afinal não tínhamos) dos Black Eyed Peas - sinal prévio de que a coisa não podia correr bem.

Hoje, o dia seguinte ao dia seguinte, em que estávamos dormentes enquanto país futebolístico, resta esperar, evocando uns Bloc Party - que, aliás, nos prometem que this pain won"t last forever -, two more years. Não estendemos as quinas à janela nem temos equipa na final (mas gostávamos). É só preciso continuar a exercitar o músculo.