Opinião

A verdadeira final foi com Portugal

Bruno Prata

1. Depois de ontem se ter visto a demonstração de superioridade da Roja no Estádio Olímpico de Kiev, ficou claro que a verdadeira final foi o Espanha-Portugal, o que é o melhor elogio que se pode fazer à equipa treinada por Paulo Bento. De facto, ninguém como a selecção portuguesa foi capaz de criar tantos problemas à campeoníssima Espanha, ontem finalmente empurrada pelo inigualável Xavi, o chefe da melhor casa de máquinas do mundo. Eventualmente, a Alemanha poderia ter sido também um opositor à altura, não fosse o seu treinador, Joachim Low, ter tido uma crise de personalidade e ter facilitado o caminho a uma selecção italiana que abandonou o futebol especulativo e passou a ser mais generosa para com os adeptos, mas que, mesmo assim, era claramente a pior equipa das meias-finais.

2. Os espanhóis saíram com a "tripleta" e com a coroação correspondente a uma equipa que já faz parte do Olimpo do futebol. Depois da época extenuante a que foram sujeitos os seus jogadores e depois de Del Bosque ter sabido restaurar a sã convivência no balneário entre o "Guardiolismo" e o "Mourinhismo" (as duas religiões que se confrontam no futebol espanhol, e não só...), a Espanha deu a justa resposta aos críticos (ou invejosos?) que já a acusavam de praticar um futebol aborrecido e sonorífico. Aqueles que já anunciavam o fim do "tiki taka" devem ter corado de vergonha. A Espanha ontem confirmou-se como a melhor selecção de que há memória, talvez mesmo à frente do Brasil de Pelé. E conquistou mais um título que é também uma homenagem ao Barcelona e a Guardiola.

3. Ontem, a selecção espanhola recuperou o encanto e a velocidade competitiva que lhe garantiram a etiqueta de equipa ganhadora. Imprimiu um ritmo incrível desde os primeiros minutos e na base da melhoria esteve o regresso de Xavi à condição de jogador imprescindível e desequilibrante. Este último fez coisas deliciosas e deixou completamente na sombra Pirlo, talvez a grande desilusão desta final. O resultado imediato da subida de produção do pequeno jogador catalão foi uma melhoria imediata ao nível da velocidade de execução de toda a selecção espanhola, algo com que uma Itália em mudança de vida não soube lidar.

4. Cesare Prandelli fez um enorme bem ao futebol italiano e teve a coragem de não repetir o trio de centrais utilizado frente à Espanha na primeira jornada. Apresentou a versão "trequartista" com Montolivo (outra desilusão), mas esta Itália ainda não está suficientemente preparada para pressionar tão alto frente a um adversário como o de ontem. Nesse sentido, Pirlo acabou por ser mais vítima do que culpado, porque nunca teve tempo nem espaço para poder responder à altura no duelo com Xavi.

5. A Itália até teve mais posse de bola no primeiro tempo (53 por cento) e pode queixar-se das lesões que, inclusive, a obrigaram a jogar meia hora em inferioridade numérica. Pouco antes, Prandelli tentou fixar dois homens no ataque quando lançou Di Natale, mas a saída forçada de Thiago Motta trocou-lhe as voltas. De qualquer forma, a diferença na qualidade de jogo foi sempre enorme, a favor da Espanha, que até se pode queixar de um penálti não assinalado por Pedro Proença.