Opinião

A estridência da festa

Maria Lopes

Pronto, acabou-se. A partir de hoje chega de espreitar os estádios improvisados e as esplanadas onde se bebem cervejas e debicam tremoços e caracóis antes do jogo na terra de cada jogador da selecção portuguesa; chega de mostrar as ruas atravancadas de carros a buzinar como se não houvesse amanhã, os pais com bebés de colo à meia-noite a comemorar as vitórias na rua, os mais atléticos a subirem às estátuas.

Em dia de jogo da selecção portuguesa é impossível fugir da invasão futebolística na televisão. Todos os canais mandam para a rua repórteres ao encontro da "festa": gente aos pulos, gritos e encontrões atrás do jornalista - quem não se lembra de identificar aquela figura do "emplastro"? - que não ouve nada do que se lhe pergunta a partir do estúdio. Mas cujos comentários também não vão além da descrição do ambiente em polvorosa com golos e a passagem a uma nova etapa da prova. Isto quando se percebe o que diz. Não deve ser fácil ser repórter nestas ocasiões.

Todos os canais espremem até mais não estes directos para todo o canto do país, um após o outro, questionando quem consegue chegar mais perto do microfone sobre o que achou do jogo e tendo como resposta habitual um "viva", "somos os maiores" ou "até os comemos". E assim se vai enchendo e esticando, cansativamente e às meias horas, a emissão, sem se aprender rigorosamente nada. Será mesmo necessária tanta estridência televisiva?

Gostar de futebol, do jogo, dos lances, de ter o coração suspenso naqueles décimos de segundo entre o pontapé na bola e a linha do golo não implica gostar de ter o ecrã cheio gritos entre o final do jogo e as reacções dos jogadores. E sim, gosto de futebol. Mas não deliro. Dá para entender... e perdoar?