Opinião

A bem do futebol

Mário Lopes

Estando a desfrutar enormemente do futebol do Euro 2012, tenho até agora duas certezas. Que tão irritante quanto a cobertura televisiva de todos os pormenores da vida da selecção e a apropriação publicitária desta para efeitos de "alavancagem" das mais diversas marcas, só a reacção diametralmente oposta que tal suscitou em gente muito séria e muito preocupada com o estado do país. Gente cuja linha de raciocínio assenta na feroz negação do prazer que o belo jogo suscita porque "isto está como está" e "assim não andamos para a frente".

Fechando olhos e tapando ouvidos a todo esse ruído desestabilizador desde o primeiro jogo, concentrando-me apenas na hora e meia dos jogos, só tenho bem a dizer. Mas, armado da sabedora empírica que proporciona ter visto as 16 equipas rolando o esférico sobre a relva, chego a uma terceira certeza: "tiki takenaccio" é a grande contribuição lexical que o Euro 2012 legará para a posteridade.

Todos respeitamos a Espanha, campeã europeia e mundial, todos adoramos Xavi e Iniesta, mas não há hoje maior aborrecimento do que ver aqueles onze vencerem adversário após adversário com uma táctica que eleva a uma virtuosa estratosfera o catenaccio de Herrera: neste Europeu, a Espanha, outrora a mais excitante selecção, está a transformar o tédio numa insuportavelmente maçuda obra de arte. No fundo, comporta-se como o gordo da escola que, no recreio, leva a bola para casa quando se aborrece. Só que Espanha não vai para casa: fica no recreio e, se não deixa ninguém pegar na bola, também não faz nada de excitante com ela. Convenceu-se que o jogo enquanto "rabia" é a essência do futebol e que o golo é um aborrecimento pelo qual se tem que passar para que a "rabia" continue no desafio seguinte.

Contra isto, para o jogo desta noite, parece restar apenas uma solução a Portugal. Ser um pouco como a selecção grega, mas com talento a sério nos pés. Ou seja, saber que raramente vai tocar na bola e colocar todo o coração e pulmão nos momentos em que a Espanha, por displicência, a largar, conseguindo dessa forma pôr o mundo em delírio com alguns segundos, os possíveis, de futebol a sério. Caso tal não funcione, resta-nos uma alternativa, repetir os 4-0 de 2010 - mas agora a sério. A bem do futebol, a bem do bem que a Espanha campeã europeia e mundial fez pela estética da bola, o "tiki takenaccio" não pode passar.