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Crónica de jogo

O dia não do super-herói e o dia sim do herói acidental

A vitória sobre a Dinamarca confirmou que Portugal sabe levantar-se do chão, mesmo com “empurrões” de Bendtner. Varela escolheu o dia certo para emendar a mão.


Aroleta só parou de rodar aos 87 minutos, quando Varela decidiu apostar a última ficha para tentar salvar o dia. A selecção estava prestes a sair desse casino chamado Arena Lviv pela porta dos fundos quando o extremo do FC Porto descobriu que, afinal, ainda tinha uns trocos perdidos nos bolsos. Arriscou tudo e saiu premiado. Aquilo que Cristiano Ronaldo, de candeias às avessas com a baliza, não conseguira em 90’, Varela resolveu em três. Dinamarca 2, Portugal 3: o Euro 2012 ficou mais nítido.

Pepe foi o primeiro a entrar na sala de jogo. Cauteloso, fez uma volta de reconhecimento ao recinto para saber por onde começar. Corte impecável aos 4’, imaculado aos 7’ e jackpot aos 24’: na sequência de um pontapé de canto (o primeiro de seis), antecipou-se a Daniel Agger e a Simon Poulsen e cabeceou com precisão para o seu segundo golo em Campeonatos da Europa.

Estava feito o mais difícil? Sim e não. O golo tranquilizou a equipa (talvez Ronaldo tenha sido a excepção), que começou a espraiar-se mais por um meio-campo que cedo sentiu a falta da qualidade do azarado Zimling (lesionou-se aos 16’). Kvist e Jakob Poulsen não davam conta do recado e os espaços iam surgindo à frente da defesa, especialmente no lado esquerdo, por acção directa de Nani. Foi ele que transformou uma bola perdida numa assistência de primeira água para Postiga ganhar confiança, aos 36’. Um remate sem hesitação que o catapultou para a restrita galeria dos seis jogadores que marcaram em três Europeus distintos.

Agora sim, a selecção podia pensar em gerir os dividendos. Calcular mais o risco, reduzir o ritmo das apostas. Mas ainda pensava no passo seguinte e já estava a ser alvo de débito em conta. Porque um Dinamarca-Portugal não chega a sê-lo se Nicklas Bendtner não deixar marca no jogo. Aos 41’, lá chegou o momento da praxe: Ronaldo fechou tarde o corredor esquerdo, Jacobsen cruzou, Krohn-Dehli surgiu ao segundo poste e assistiu o ponta-de-lança do Arsenal, num tête-a-tête perfeito. Foi o quinto golo de Bendtner em cinco jogos frente a Portugal.

Mesmo assim, de barriga cheia, o número 11 dinamarquês não se deu por satisfeito. E utilizou os 45’ que se seguiram para tentar a sorte por mais duas vezes. Na primeira, errou o alvo. Na segunda, deixou o banco de suplentes de Portugal à beira de um ataque de nervos (e vão seis). Cruzamento perfeito de Jacobsen sobre o lado direito e cabeceamento autoritário para descontentamento de um desamparado Rui Patrício. Foi o único erro digno desse nome de Pepe. E significou o empate, a dez minutos do fim.

O deslize do central do Real Madrid teria tido muito menos importância, porém, se Cristiano Ronaldo não andasse em contramão com os golos. Primeiro sinal de avaria aos 18’: remate enrolado de fora da área. Luz amarela acesa aos 49’: embalado, só com Andersen pela frente, atirou à figura. Momento de chamar o reboque aos 78’: novamente Nani, novamente na cara do guarda-redes, desta vez para fora. O “super-herói” de serviço mostrava o seu lado humano.

Por esta altura, era sobretudo com o extremo do Manchester United que Paulo Bento podia contar para chegar mais longe. Nani não contribuía para melhorar a confrangedora percentagem de passes certos da equipa (73%, a pior média das 16 selecções em prova), mas cumpria nos momentos decisivos e ainda se propunha a sacudir o jogo. Percebeu-se, por isso, que não era ele que ia sair de campo quando Varela foi chamado a depor, aos 84’.

Portugal já fora uma equipa tranquila, depois anestesiada e agora precisava de uma última injecção de adrenalina. Varela, o anti-herói do jogo com a Alemanha, com aquele falhanço fatal mesmo em cima do apito final, sabia ao que ia. O que não sabia é que desta vez a sorte do jogo estava disposta a sorrir-lhe. Entrou, colou-se ao flanco direito, deu uma corrida para a frente, fugiu a um fora-de-jogo, deu uma ajuda a defender. Num minuto, ninguém dava por ele. No outro, não conseguia passar despercebido. Bola no centro da área, primeira hesitação e depois um remate para a posteridade.O país passava a ter um herói acidental para louvar e mais seis minutos (e respectivos descontos) para sofrer. A Dinamarca já desde os 60’ que tinha Rommedahl ao lado de Zimling na enfermaria, mas isso nem era assim tão má notícia, já que Mikkelsen ainda dava que fazer a Fábio Coentrão. Foi nesse corredor, demasiadas vezes posto à prova, que os nórdicos insistiram até final. Portugal fechava-se a sete chaves, como se impunha. E tentava segurar a bola.

Nas bancadas, os dinamarqueses, pintados de vermelho e branco, pareciam desbotados. Varela, o pistoleiro mais rápido da nação (a par de Costinha, no Euro 2000, precisou apenas de três minutos para marcar, depois de saltar do banco), dava um novo fôlego a uma equipa que teve o mérito de saber cair e levantar-se. E que continuará de pé, pelo menos até ao jogo com a Holanda.

Ficha de jogo

Arena de Lviv, na Ucrânia
Assistência: 30 mil espectadores

Dinamarca - Portugal, 2-3
Ao intervalo: 1-2
Marcadores:
0-1, Pepe, 24 minutos
0-2, Hélder Postiga, 36'
1-2, Nicklas Bendtner, 41'
2-2, Nicklas Bendtner, 80'
2-3, Varela, 87'

Dinamarca Stephan Andersen, Lars Jacobsen, Simon Kjaer, Daniel Agger, Simon Poulsen, William Kvist, Niki Zimling (Jakob Poulsen, 16'), Dennis Rommedahl (Tobias Mikkelsen, 60'), Christian Eriksen, Michael Krohn-Dehli (Lasse Schone, 90') e Nicklas Bendtner

Portugal Rui Patrício, João Pereira, Pepe, Bruno Alves, Fábio Coentrão, Miguel Veloso, Raul Meireles (Varela, 84'), João Moutinho, Nani (Rolando, 89'), Hélder Postiga (Nelson Oliveira, 64') e Cristiano Ronaldo

Árbitro: Craig Thomson (Escócia)
Acção disciplinar: cartão amarelo para Raul Meireles (29'), Jakob Poulsen (56') e Cristiano Ronaldo (90'+2')

Notícia actualizada às 22h14