Descrição

Ronaldo falhou um penálti, quando Portugal perdia por 1-2

Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP
Selecção

Crónica de jogo: Reféns do golo

A selecção é uma festa. O estádio encheu, mais de 60 mil pessoas vestiram as cores da bandeira e tingiram a Luz de vermelho e verde, o hino foi entoado com sentimento e a fé depositada na equipa que está a sete dias de se estrear no Euro 2012. Mas, para a festa ser completa, mais do que a vitória, esse prazer supremo de qualquer momento festivo, faltam os golos, são eles que ornamentam a euforia. Só que o convidado, a Turquia, e a equipa de Paulo Bento, não deixaram lançar os foguetes. A selecção saiu do último ensaio com uma derrota-choque por 1-3.


A selecção é também uma festa colorida, cheia de dribles e toques bonitos, artistas de primeira água (“Eu e Ronaldo somos os melhores extremos do mundo”, disse antes do jogo Nani). Os passes exactos de Veloso entrelaçam com a força de Alves e o ímpeto de Pepe na defesa. Moutinho é um motor que nunca se engasga e Meireles o parceiro nesta luta de levar o alimento ao avançado, esse homem que se faz e desfaz conforme o golo, é este que dita a sua sobrevivência. E a da equipa. E é dele que Portugal está refém.

Hugo Almeida foi o escolhido para o jogo deste sábado frente à Turquia do guarda-redes Volkan Demirel, quando Hélder Postiga havia sido o eleito para a Macedónia de Martin Bogatinov. Tanto Almeida como Postiga, um e outro, vivem sob essa espécie de espada de Dâmocles – obrigados a reinar enquanto o golo não ditar a sua morte. Sem marcar à Polónia e à Macedónia, Portugal entrou na Luz nessa demanda. E parece ter nascido um outro escolhido: Nelson Oliveira. Foi ele a entrar para o lugar de Almeida quando Portugal precisava mais de golos.

Nessa procura quase louca – 247 minutos sem marcar nos três últimos particulares, depois da enxurrada de golos à Bósnia (6-2) –, Portugal descurou outro bem precioso, a sua baliza. Agora à guarda de Patrício (Beto jogou os 90 minutos contra os macedónios), que sofreu dois golos, ambos de Umut Bulut, avançado do Toulouse. Um em cada parte, a agudizar a dor de Almeida: o jogador dos turcos do Besiktas baixou a cabeça nos dois golos de Bulut.

Percebe-se porquê. Logo aos 25 segundos de jogo, Ronaldo ofereceu-lhe um golo. Um filme que se foi repetindo durante a partida, mudando os protagonistas excepto o principal – Almeida foi desperdiçando as oportunidades, a equipa foi perdendo gás e a Turquia crescia.

Aos 40 minutos, Hugo Almeida isolou-se e, frente a Demirel, cedeu a bola a Coentrão, atrasado no lance. Ficou demonstrada a falta de instinto, essencial para chegar ao golo. Antes Bulut tinha aproveitado um erro de Miguel Lopes (estreou-se pela selecção), que precipitou uma cadeia de outros de Alves e Pepe, para bater Patrício. Na segunda parte, a mesma coisa: falha de Pepe e o mesmo Bulut fuzilou a baliza de Patrício.

A Turquia, 33.ª do ranking, é uma selecção fechada, uma escolha repetida de Bento e da FPF (antes foi a Macedónia, 98.ª do ranking). Adversários sem iniciativa de jogo, diferentes das selecções do grupo de Portugal (5.ª classificada) no Europeu: Alemanha (2.ª), Holanda (4.ª) e Dinamarca (10.ª). Escolhas que parecem fazer tão pouco sentido como as opções do seleccionador português para o jogo.

A uma semana exacta de defrontar a Alemanha e apostar em Miguel Lopes como defesa direito (preterindo João Pereira) deixou o corredor coxo e a Nani sem alimento. Só na segunda parte o jogador do Braga se conseguiu soltar – seria ele, depois de Nani reduzir para 1-2, a sofrer o penálti que Ronaldo desperdiçaria (Demirel defendeu).

Antes houve duas bolas ao poste (uma para cada lado na primeira parte). Primeiro tinha sido Almeida, a cabecear à barra; na resposta, Altintop marcou um livre directo com força ao poste. Até aí os turcos levaram a melhor sobre os livres-míssil de Ronaldo: o avançado do Real Madrid dispôs de três oportunidades, mas não conseguiu muito mais do que arrancar suspiros das bancadas.

Só que, a tão pouco tempo do jogo com a Alemanha e com Paulo Bento a tentar dar prendas aos adeptos – a entrada de Eduardo foi um doce para os adeptos no estádio do Benfica –, a equipa fez o contrário do que se pedia. Ofereceu uma despedida triste. O guarda-redes saiu-se mal e Ricardo Costa chutou a bola contra as costas de Pepe, que terminou o jogo com um autogolo e avolumando a derrota para 1-3.

Aí sim, com o apito final do árbitro, os assobios caíram sobre o relvado. Portugal viaja para a Polónia sem qualquer vitória em 2012 (dois empates e uma derrota). Uma despedida amarga, a lembrar a derrota com a Jugoslávia antes do Euro 84 e o empate sem golos com Cabo Verde em 2010 – curiosamente, duas das melhores participações portuguesas em fases finais.
POSITIVO
Bulut
O avançado turco do Toulouse mostrou aos avançados portugueses como se fazem golos. Os dois que marcou, um em cada parte e ambos a Patrício, foram aquilo que um ponta-de-lança deve ser: rápido a aproveitar os erros dos outros e letal na hora de finalizar.

NEGATIVO
Defesa de Portugal
Um desastre. Três golos, todos culpa da defesa. No primeiro, Miguel Lopes mostrou que a inexperiência se paga caro. Nos outros dois, a experiência de Pepe não serviu de nada. Uma trapalhada. Despedida amarga da selecção de Paulo Bento, que não só não marca golos como agora começou a sofrer.

Notícia actualizada às 22h37