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Vence Rep. Checa por 1-0

Uma equipa de corpo inteiro em apenas metade do campo

Afinal, não era bluff. A República Checa entrou mesmo no Estádio Nacional de Varsóvia para tapar buracos e deixar o resto ao cuidado de Petr Cech e dos seus postes amestrados.


A Portugal, que teve no azar o único adversário de respeito durante os 90 minutos, competia tomar as rédeas do jogo e do seu próprio destino. Cristiano Ronaldo, um acrobata sem medo do arame, assumiu o risco. Uma e outra vez, sem direito a vertigens. Até chegar às meias-finais do Euro 2012.

Para os compêndios da UEFA, fica o registo de um modesto 1-0. Para quem assistiu ao primeiro encontro dos quartos-de-final do torneio, fica a sensação de que Portugal nunca teve um antagonista à altura. Os checos rapidamente se desorientaram no labirinto das suas próprias limitações e abriram as portas a um monólogo de futebol que dificilmente terá paralelo nas três restantes partidas desta eliminatória.

Tudo começou como um Lego. Portugal encaixado na República Checa e a República Checa encaixada em Portugal. Durante os primeiros 20 minutos, Kadlec e Sivok comandaram a defesa, Hubschman (médio do Shakhtar Donetsk, que perdeu a oportunidade de jogar em casa nas meias-finais) e Plasil estancaram o meio-campo e Darida não se deu mal na pele de terceiro número 10 dos checos neste Europeu. O jogo decorria em apenas um terço do terreno e não era digno de mais do que um longo bocejo.

O primeiro pontapé à baliza surgiu aos 10’ e foi um passe de João Moutinho para Cech. Pouco? Talvez, mas se tivermos em conta que a República Checa terminou o encontro apenas com dois remates (!) e que nenhum deles saiu sequer enquadrado com a baliza, podemos olhar para o esforço do número 8 português com outros olhos. De resto, o melhor lance dos checos surgiu minutos depois, quando Darida lançou Jiracek para um cruzamento que por poucos centímetros não encontrou o pé direito de Milan Baros.

Ponto final na “produção” atacante de uma equipa que sente — e de que maneira — a falta de Tomas Rosicky. A partir daí, começou o vendaval português. Primeiro com uma brisa leve, numa assistência de Pepe para o gesto mais fotogénico da noite, um pontapé de bicicleta de Ronaldo que terminou no placard de publicidade. Depois com um passe requintado de Raul Meireles para o avançado do Real Madrid, que respondeu com uma execução à avançado do Real Madrid: recepção perfeita, rotação rápida e remate espontâneo. Poste 1, Ronaldo 0.

Reacendia-se uma das relações mais apaixonantes deste Euro 2012: Ronaldo e os postes, os postes e Ronaldo, para continuar a acompanhar num relvado perto de si. Isto foi aos 45’, sete minutos depois de Hélder Postiga ter saído por lesão (entrou Hugo Almeida) e dois minutos antes do apito para o intervalo.

Checos em retirada

Por esta altura, já só havia uma equipa interessada em chegar às meias-finais, ou pelo menos em fazer pela vida para merecer a viagem até Donetsk. Portugal, que em 29 de Janeiro deste ano tinha ajudado a Polónia a estrear o Estádio Nacional de Varsóvia, parecia conhecer melhor os cantos à casa.

A brisa suave do meio do primeiro tempo rapidamente se transformou em rajadas que levaram o adversário a proteger-se, aninhado no seu canto. Mal tinha arrancado a segunda parte e já Veloso, Meireles e Ronaldo combinavam para colocar a bola na cabeça de Hugo Almeida. Aos 47’, o avançado do Besiktas (que protagonizou em campo um duelo directo com um companheiro de equipa, Sivok) atirou por cima, aos 49’ Ronaldo reencontrou o ferro, na cobrança de um livre directo. Poste 2, Ronaldo 0. A saga continua.

Era uma questão de tempo e, para azar dos checos, ainda havia muito pela frente. E Portugal soube geri-lo, com parcimónia, com calculismo. Foi circulando a bola no meio-campo, foi ganhando metros ao adversário e alargando o jogo até às faixas. O campo já parecia um funil, a jorrar continuamente na direcção da baliza de Petr Cech.

Moutinho subiu com a bola, largou para Meireles, o médio do Chelsea solicitou Ronaldo para novo remate, desta vez por cima. Seguiu-se Nani, de fora da área, a testar a fiabilidade das mãos de um dos melhores guarda-redes do mundo. Intacta, para já. Posta em causa pouco depois, num lance anulado por fora-de-jogo de Hugo Almeida.Tudo na mesma. Portugal a marchar e a República Checa em retirada. Michal Bílek, no banco, arriscou pouco ou nada com a troca de Darida por Rezek, deslocando Jiracek para a posição 10. O resultado foi um remate de Moutinho, um cabeceamento de Almeida para fora (mais um), um disparo de Raul Meireles para a cobertura do estádio.

Portugal era uma equipa de corpo inteiro a jogar somente em metade do campo, com os centrais a assegurarem pouco mais do que o passe inicial para a primeira fase de construção. João Pereira também já se aventurava mais pela direita e o futebol geométrico de Raul Meireles era um quebra-cabeças muito para além da compreensão dos checos. Foi dele mais uma assistência condimentada para Nani, que deu ao lance o mesmo seguimento de todos os outros.

Faltava um minuto para entrar nos últimos dez. Nani soltou na direita para Moutinho, que rasgou pelo lado de Kadlec e arriscou o cruzamento. Na área, Ronaldo, o acrobata de serviço, saltou para a bola com a determinação de quem não gosta que se fale de ineficácia no ataque da selecção. Cabeceou como um ponta-de-lança e, desta vez, não houve poste que o detivesse.

As meias-finais, as quartas da história portuguesa em Campeonatos da Europa, estavam à porta. Ronaldo abriu os braços e sorriu, aliviado. Nesse minuto 79, o país terá sorrido com ele.

Portugal vai jogar contra o vencedor do Espanha-França, marcado para sábado, 23 de Junho, às 19h45 (hora em Lisboa).

Ficha de jogo

Rep. Checa: Petr Cech; Gebre Selassie, Kadlec, Sivok, Limberský; Plasil, Pilar, Hübschman (Peckhart, 86'), Jirácek, Darida (Jan Rezek, 61'); Baros.

Portugal: Rui Patrício; João Pereira, Bruno Alves, Pepe, Fábio Coentrão; Miguel Veloso, Raul Meireles (Rolando, 88'), João Moutinho; Nani (Custódio, 84'), Cristiano Ronaldo, Postiga (Hugo Almeida, 40').

Árbitro: Howard Webb (Inglaterra)

Acção disciplinar: Amarelo para Nani (26'), Miguel Veloso (27'), Limberský (90')

Estádio: Nacional de Varsóvia

Assistência: 55.590 espectadores