Descrição

Luca Caioli escreveu a biografia sem falar com Ronaldo

Rui Gaudêncio
Biografia

O jornalista italiano que escreveu sobre a obsessão de Ronaldo pela perfeição

Já muito se escreveu sobre Cristiano Ronaldo, já quase tudo se sabe sobre o melhor jogador português da actualidade (talvez o melhor de sempre), já pouco falta para fechar uma (nova) biografia sobre o avançado do Real Madrid. Mesmo assim, o jornalista italiano Luca Caioli arriscou e avançou com um livro sobre a vida do craque, que não surpreende pelas novidades, antes por aquilo que o levou a escrever: a obsessão pela perfeição do futebolista, a que deu o nome A Perfeição É o Limite.


As primeiras folhas do livro são um bom retrato da personalidade do jogador: só com citações de Ronaldo que andam à roda do "Penso que por ser rico, giro e um grande jogador, as pessoas têm inveja de mim, não há outra explicação".

Gay Talese conseguiu fazer nos anos 60 o retrato perfeito de Frank Sinatra para a Esquire sem falar com o cantor/actor. À semelhança do escritor americano, Luca Caioli, jornalista italiano que passou pelo Corriere della Sera, faz o mesmo, falou com as pessoas que rodeiam Ronaldo e fazem parte da sua vida. Construiu o texto mais exacto sobre o carácter do capitão da selecção que partiu ontem para a Polónia, onde vai disputar o Campeonato da Europa.

"Tem um superego monstruoso", contou ao PÚBLICO o jornalista, também biógrafo de Lionel Messi, Fernando Torres, Lance Armstrong e, agora, a trabalhar num livro sobre Roberto Mancini, treinador do Manchester City. Uma espécie de escritor pop, sobre estrelas do desporto. Em Ronaldo, o que o fascinou foi a capacidade de superação na sua vida. "Provém de um meio muito pobre, aos 12 anos levaram-no para Lisboa, onde estava sozinho e chorava todos os dias. O pai dele era alcoólico, o irmão drogado, não era uma família-modelo. Agora é rico e famoso e, tudo o que conseguiu, conseguiu-o ele, sem qualquer ajuda".

Caioli também consegue definir bem a relação de Ronaldo com Messi, socorrendo-se de uma frase de Jorge Valdano, argentino que foi director do Real Madrid. "Messi fala com a bola no pé, pode ser o homem que entrega pizzas em casa". Do lado inverso aparece o Ronaldo-anúncio da Armani.

"[Ronaldo] Tem a imagem de pessoa um pouco prepotente e ele sabe-o. O público vê-o como um homem vaidoso e um pouco grosseiro, rufião, mas é uma imagem de que ele próprio gosta", escreve, ouvindo Ian Hawkey, correspondente de futebol europeu do Sunday Times.

E a relação Cristiano-Mourinho? "É uma relação de interesses, é como a relação entre a China e os Estados Unidos: não conseguem compreender-se de todo, mas precisam um do outro". Aqui Caioli socorre-se de uma afirmação de Diego Torres, jornalista do El País.

O espanhol também é citado numa descrição de futurologia de Ronaldo. "O futuro é muito incerto porque é um produto comercial e, por isso, está sujeito ao mercado. Muito mais do que os outros futebolistas, porque os outros não têm, no mercado, o mesmo valor que ele".

É um jogador que provoca paixões: nos adeptos em Madrid, em Portugal, em Inglaterra, em Washington, na Ásia, no público feminino, entre as crianças ou na comunidade gay.

Pergunte-se a Caioli sobre as paixões de Ronaldo. "Futebol, automóveis, família, clã, atletismo, ténis, natação, música, Madeira, ténis de mesa". E as obsessões? "Os abdominais, o cabelo, as sobrancelhas, o 7, a luta contra o tabaco, a dieta, a altura da relva da sua casa, a sua vida privada, a bola, o golo, os títulos, Messi, a Bola de Ouro, ser o melhor, a perfeição...".

Ou seja, a obsessão pela perfeição, "algo que não é deste mundo".