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Nani marcou o golo português frente à Turquia, no sábado, no último jogo antes do Euro 2012

Foto: Patrícia Moreira de Melo/AFP
Portugal

O ADN da selecção mostra que os golos não são marcados por avançados puros

Os números têm sido o maior inimigo de Portugal. E dão razão a quem diz que, se o futebol não tivesse balizas, a selecção portuguesa seria a melhor do mundo. Só que esse tricotar parece ser o bom e o mau da selecção das quinas: os golos fazem falta e a equipa de Paulo Bento está a sofrer da sua escassez.


Na memória dos adeptos está o golo de João Pinto à Inglaterra no Europeu de 2000, uma obra-prima que nasceu de uma jogada com uma série de toques e passes entre os jogadores antes de terminar na cabeça do camisola 8. "Esse futebol é o nosso mosaico, está no nosso ADN", lembra o ex-seleccionador António Oliveira. "É um futebol rendilhado que assenta o seu jogo nos médios", continua, justificando o porquê da selecção não jogar para um homem na área. "Não precisa, nem nunca precisou."

Nos dois últimos jogos antes da viagem para a Polónia para o Euro 2012 - Portugal defronta no sábado a Alemanha no primeiro jogo do Grupo B -, a selecção portuguesa precisou de 34 remates ante a Macedónia (0-0) e a Turquia (1-3) para marcar um golo. Antes, ficara a zero no particular em Varsóvia contra a Polónia (0-0). "São jogos nos quais os jogadores já estão com a cabeça no Europeu e não dão muita importância", destaca ainda Oliveira.

A ausência de uma referência de área podia ser uma das causas para a falta de golos. O melhor marcador da fase de qualificação nem sequer foi um ponta-de-lança: Cristiano Ronaldo com nove golos, ficou à frente de Hélder Postiga (8) e Hugo Almeida (4). Nélson Oliveira nem sequer se estreou a marcar.

Mais: o avançado do Real Madrid pode bem ser uma das opções para o ataque, dada a falta de faro para o golo de Almeida e Postiga. Até porque Ronaldo faz várias posições no ataque e terminou a época em Espanha com um total de 60 golos (46 na Liga espanhola, dez na Champions, três na Taça do Rei e um na Supertaça de Espanha).

A olhar para todas as fases finais de Portugal (disputou dez entre Mundiais e Europeus), só por duas vezes a selecção contou com um jogador que garantisse golos: a primeira foi com Eusébio, em 1966; a segunda, em 2000, num Europeu no qual se destacou Nuno Gomes. Nunca mais Portugal contou com um homem na área que resolvesse o problema da finalização.

Eusébio sagrou-se mesmo o melhor marcador na edição do Mundial de 1966 com nove golos (a selecção portuguesa terminou também com o melhor ataque, com 17 golos). O avançado do Benfica marcou em cinco dos seis jogos da selecção - ficou em branco apenas no encontro inaugural ante a Hungria, mas deixou sempre a sua marca nas restantes partidas, com a Bulgária (1), Brasil (2), Coreia do Norte (4), Inglaterra (1, no desaire por 2-1) e União Soviética (1, na vitória 2-1 que garantiu o terceiro lugar).

Feito parecido tentou Nuno Gomes, que marcou um nos três jogos da fase de grupos (o último no triunfo sobre a Inglaterra por 3-2), foi decisivo contra a Turquia nos quartos-de-final com dois golos na vitória por 2-0 e apontou o único na meia-final contra a França (derrota por 2-1).

São duas situações pontuais que ajudaram a selecção. Ao contrário, por exemplo, dos três golos de Pauleta. O melhor marcador absoluto de Portugal, com 47 golos, foi pouco incisivo nas fases finais. Apesar dos três golos com que terminou o Mundial da Coreia/Japão em 2002, e que colocam o avançado açoriano na lista dos melhores marcadores de sempre da selecção em fases finais, estes foram todos apontados no mesmo jogo, com a Polónia, no Mundial 2002, vitória por 4-0.

Nos restantes, deixou a selecção à míngua de golos. Como Jordão no Europeu de 1984 (dois golos). Portugal tem vivido à sombra do trabalho dos médios - autores de 33 golos dos 72 marcados em fases finais. "Portugal e o Brasil não jogam em dois, três toques como a Alemanha, a Holanda ou a Inglaterra o fazem para chegar à baliza adversária", observa Oliveira.

O biótipo do jogador português mudou ao longos dos tempos, mas o jogo de passe e de posse manteve-se. E é assim que Portugal vai chegar a mais uma fase final. "Dois médios marcam tanto ou mais que um ponta-de-lança" e quem tem Ronaldo, "um dos melhores marcadores de golos do mundo", não precisa de ter medo com a falta de golos, sentencia o ex-internacional português, ele que foi seleccionador de Pauleta.

Golos portugueses em fases finais

Eusébio - 9 (Mundial 66)
Nuno Gomes - 4 (Euro 2000)
Pauleta - 3 (Mundial 2002)
José Torres - 3 (Mundial 66)
José Augusto - 3 (Mundial 66)
Jordão - 2 (Euro 84)
Ronaldo 2 - (Euro 2004)
Maniche - 2 (Euro 2004)
Rui Costa- 2 (Euro 2004)
Maniche - 2 (Mundial 2006)
Tiago - 2 (Mundial 2010)