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Andrea Pirlo e o penálti "à Panenka" contra a Inglaterra

Foto: Carl de Souza/AFP
Futebol

Há mais ciência do que improviso nas grandes penalidades

Ao contrário do que se possa pensar, e ao contrário do que é o discurso habitual dos jogadores e técnicos de futebol, o desempate por grandes penalidades tem pouco de "lotaria". Está mais perto de uma disciplina científica, com variáveis que são estudadas ao pormenor e permitem a uma equipa ser mais eficaz na hora fatídica. Depois, claro, há momentos que desafiam a lógica, como aquele protagonizado por Sergio Ramos frente a Portugal: uma bola batida com pouca força, ao centro da baliza - o penálti "à Panenka". Os factores psicológicos assumem uma importância extra nestas alturas e guardar os últimos (e decisivos) penáltis para os melhores jogadores nem sempre é uma vantagem.


Algo que Cristiano Ronaldo sentiu de forma pessoal no desempate frente à Espanha, que ditou a eliminação no Euro 2012. O capitão da equipa nacional era quinto na ordem de marcação e nem chegou a enfrentar Casillas. "Foi a ordem que decidimos. Se estivesse 4-4 e ele [Cristiano Ronaldo] tivesse marcado, não estaríamos a falar dessa situação", afirmou no final o seleccionador Paulo Bento. Cristiano Ronaldo estava inconformado: "Os penáltis são uma lotaria. Não tive a oportunidade [de marcar], foi decidido antes."

Se o quinto penálti fosse o decisivo, a experiência de Cristiano Ronaldo permitir-lhe-ia lidar com a pressão, concorda o treinador do Vitória de Setúbal, José Mota: "Os maiores líderes são os que fazem o penálti em primeiro lugar ou em último, porque esses são os mais decisivos. Nada como um jogador que está habituado a estas situações".

Treino vs improviso

Um estudo da Universidade de São Francisco, coordenado por Tim McGarry e Ian Franks, corrobora esta opinião: "Os cinco melhores marcadores de penáltis devem cobrar os cinco primeiros pontapés na ordem inversa à sua capacidade. Ou seja, o quinto melhor deve marcar o primeiro, o quarto melhor deve marcar o segundo e sucessivamente."

A Inglaterra, uma selecção com tradição de derrotas em desempates por penáltis, voltou a sofrer com essa maldição no Euro 2012, caindo frente à Itália. "Marcámos penáltis nos treinos e correu bem, mas é impossível reproduzir o ambiente do jogo", queixou-se o técnico britânico, Roy Hodgson. José Mota discorda: "Há muito treino. É tudo estudado para que as coisas não sejam feitas em cima do joelho num momento tão decisivo. Esse trabalho vai definir aqueles que estão melhor. Um grande marcador de grandes penalidades tem de marcar e falhar muitas. E mesmo assim está sujeito a falhar", sublinhou.

Sergio Ramos, internacional espanhol, arriscou frente a Portugal e deu-se bem. Ele que tinha falhado um frente ao Bayern de Munique, na Liga dos Campeões. Diante de Rui Patrício, bateu "à Panenka". "É preciso ter uma coragem muito grande para marcar daquela forma. Foi um acto que deu segurança aos colegas", notou José Mota.

Houve uma dose de coragem, mas que pode também ser compreendida à luz da ciência: cinco investigadores israelitas concluíram que os guarda-redes decidem o que fazer antes de a bola ser pontapeada e, em 94% dos casos, se lançam para um dos lados. É um constrangimento mental para "fazer alguma coisa" e que os impede de segurar penáltis como o de Sergio Ramos.

Da mesma maneira, os futebolistas tendem a rematar para a esquerda ou para a direita, conforme se sintam mais confortáveis, porque o desempate por penáltis surge numa fase do jogo em que há grandes níveis de fadiga e stress acumulados.

Estudar os hábitos dos marcadores, analisar-lhes a linguagem corporal, tudo conta para os guarda-redes. Até mesmo recorrer à tecnologia como fez Ben Foster (Man. United) na final da Taça da Liga inglesa 2008-09, frente ao Tottenham: antes do penáltis, em pleno relvado, analisou alguns vídeos no seu iPod. E conseguiu travar um dos remates.

Certo é que os guarda-redes que travam mais penáltis são os que se lançam à bola o mais tarde possível, concluiu um estudo realizado na Faculdade de Motricidade Humana entre 2008 e 2009, em colaboração com o Sporting, então treinado por... Paulo Bento.