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A Dinamarca nunca saiu do jogo porque Ronaldo perdoou mais do que estava previsto

Foto: Darren Staples/Reuters
Opinião

Bruno Prata: Ronaldo precisa de um psicólogo

A Dinamarca nunca saiu do jogo porque Ronaldo perdoou mais do que estava previsto.


1. Portugal continua a ser uma equipa que deixa muitas dúvidas, mas nesta quarta-feira teve pelo menos o mérito de ter sempre claro qual era o seu papel e o que lhe era pedido a cada momento. Fê-lo sem nunca entrar em ebulição e impôs-se à Dinamarca nas mais importantes e decisivas facetas do jogo.

2. É verdade que teve a fortuna que lhe faltou noutras situações idênticas (a Dinamarca substituiu, por lesão, dois jogadores importantes). E não foi a equipa sem freio e capaz de impor o ritmo torturador que, ingenuamente, alguns reclamavam. Não teve sequer um arranque espumoso, contrastando então com uma Dinamarca bem menos ansiosa. Mas acabou por ganhar estabilidade e provar que, às vezes, para vencer é preciso saber esperar. O plano de voo de Paulo Bento foi equilibrado e bem definido. Para garantir o equilíbrio não teve dúvidas, por exemplo, em abdicar durante muito tempo da participação ofensiva dos laterais.

3. Portugal teve menos bola tanto na primeira como na segunda parte. Mas os apenas 42% que se verificavam nos dois momentos não traduziram uma superioridade nórdica, antes a aposta num jogo demasiado directo – os lançamentos partiam sempre de Pepe ou Bruno Alves. Uma estratégia questionável e que fez com que Meireles e Moutinho quase não conseguissem participar na fase de construção.

4. A meio do primeiro tempo, a normalidade lá acabou por regressar. Mas importa reconhecer que Portugal precisou de pouco mais de três oportunidades para marcar os dois primeiros golos. Uma eficácia inabitual, mas que reflecte trabalho de campo. O primeiro surgiu na sequência de duas bolas paradas consecutivas. A marcação individual dinamarquesa confirmou-se como demasiado errática. O livre deu origem a um canto em que Pepe aproveitou a bola tensa enviada por Moutinho para fazer lembrar Schevechenko. Poulsen foi surpreendido pela forma contundente como o central atacou a bola ao primeiro poste. Antes, Nani também teve um papel desestabilizador. Por vezes, um instante, um simples detalhe transforma o curso do jogo.

5. A simplicidade de processos foi o segredo do segundo golo, impossível sem a qualidade da assistência de Nani (o segundo melhor em campo, depois de Pepe). Postiga beneficiou da lentidão de Kjaer. Mas isso não diminui o mérito de um avançado que não é consensual, mas que sabe marcar golos bonitos.

6. Portugal nunca governou o jogo com mão de ferro, mas o segundo golo de vantagem retirou-lhe concentração. Resultado: Bendtner mostrou por que gosta tanto de jogar connosco.

7. A Dinamarca não transpira talento, mas a bola já lhe obedece. No entanto, depois do seu primeiro golo exibiu-se de forma anódina. Quando arriscou, Portugal passou a ter espaço. Paulo Bento leu então bem o jogo: lançou Nélson Oliveira, que ganha a Postiga em velocidade e poder físico. Em condições normais, Ronaldo teria então acabado com a questão. Em vez disso, Bendtner recordou-nos momentos em que passamos do céu ao inferno. Paulo Bento recorreu ao plano B (saída de Meireles, entrada de Varela e Nani na posição dez). E Varela redimiu-se do falhanço com a Alemanha.

8. A Dinamarca nunca saiu do jogo porque Ronaldo perdoou mais do que estava previsto. É difícil entender como o seu talento pareceu ter ficado subitamente oxidado. Paulo Bento devia ter levado um psicólogo na comitiva, como fez Klinsmann quando foi nomeado seleccionador alemão. Porque alguém precisa controlar a ansiedade do craque. E explicar-lhe que a melhor forma de fazer um bom Europeu e garantir a Bola de Ouro é relaxar e divertir-se com o jogo. Quando ficar menos obcecado com as vitórias, com os golos e consigo próprio, tudo ficará mais fácil. Para ele e para Portugal.