Descrição

O futuro a curto prazo desta selecção é o Mundial 2014 no Brasil e deverá manter-se quase todo este "onze"

Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP
Euro 2012

As boas e as más notícias para a selecção portuguesa após o Europeu

Há boas e más notícias para a selecção portuguesa após este Euro 2012. Primeiro, as boas. As expectativas voltaram a subir, há jogadores que se estabeleceram como legítimos futebolistas de selecção, há uma liderança técnica indiscutível e consensual, há um "onze"-base forte com um dos melhores do mundo disponível para fazer a diferença e em que quase todos estão numa altura de maturidade competitiva e sem pensar em retirada. As más notícias, para além de mais uma eliminação quando o sucesso estava próximo, são que este é um grupo demasiado restrito e que esta selecção tem um prazo de validade de dois a quatro anos sem que uma nova geração se afirme de forma indiscutível.


Durante, e após o Mundial 2010 na África do Sul, a selecção entrou em implosão. O comando técnico de Carlos Queiroz foi posto em causa várias vezes e ele acabou por sair em conflito com a FPF e com vários jogadores - vários anunciaram de imediato a sua renúncia à selecção, como Paulo Ferreira, Simão, Miguel, Tiago e Deco. Dos 23 de 2010, transitaram apenas 11, ou seja, em dois anos mais de metade da selecção é nova (também estão 11 do Euro 2008 e quatro do Mundial 2006). Ou seja, Paulo Bento fez quase uma revolução sem fazer baixar significativamente a média de idades (27,8 em 2010 para 27,1), mas aumentou a esperança de vida desta geração com alguns nomes quase ignorados pela gestão anterior, como João Pereira, João Moutinho ou Miguel Veloso.

O futuro a curto prazo desta selecção é o Mundial 2014 no Brasil e deverá manter-se quase todo este "onze", em que Paulo Bento praticamente não mexeu durante o Euro. Mais, as principais figuras da selecção portuguesa ainda estarão bem dentro do prazo. Cristiano Ronaldo terá 29 anos e estará no pleno das suas faculdades, tal como Nani (27), João Moutinho (27), Fábio Coentrão (26), Rui Patrício (26) e Miguel Veloso (28). Todos os outros estarão nos 30 anos: Pepe (31), João Pereira (30), Raul Meireles (31), Hélder Postiga (31) e Bruno Alves (33). Uma selecção com presente, portanto.

A outra peça para a estabilidade a curto prazo desta selecção é a manutenção de Paulo Bento para mais um ciclo, uma aposta na continuidade depois da tumultuosa liderança de Queiroz. Bento queria o seu futuro resolvido antes do Euro, renovaram-lhe o contrato até 2014 e o ex-treinador do Sporting respondeu com resultados, sobrevivendo numa competição onde os especialistas não lhe auguravam grande futuro. Foi o escolhido para uma situação de emergência e provou que a idade ou os anos de experiência não eram obrigatórios para chegar longe - com 42 anos, ele era o mais novo entre os 16 treinadores.

A qualificação para o Mundial 2014 tem, assim, tudo para correr bem desde o início e evitar a falsa partida do apuramento para o Euro (empate com Chipre e derrota com a Noruega). Com uma equipa moralizada, unida e confiante como esta pareceu ser, o grupo F da qualificação europeia não parece ter adversários à altura. A Rússia é o único rival que esteve no Euro e até mostrou alguma coisa, mas vai entrar em novo período de reconstrução depois da eliminação na fase de grupos e da saída de Dick Advocaat. O primeiro jogo é já a 9 de Setembro deste ano, no Luxemburgo.

As más notícias

Tal como acontecera em 2010, Portugal voltou a cair frente à Espanha. Apenas uma vez, em 2004, a selecção portuguesa conseguiu ir a uma final (perdeu em casa com a Grécia), falhando nas outras cinco vezes em que chegou a uma meia-final. Foi o azar/coincidência de a selecção portuguesa ter coincidido com a melhor geração de jogadores espanhóis, tal como já acontecera das duas últimas vezes que foi eliminada pela França de Zidane (Euro 2000 e Mundial 2006). Já para não falar do Mundial 66 e do Euro 84, em que os carrascos das "meias" foram os organizadores que também haveriam de chegar ao título (Inglaterra e França).

Dos 23 convocados por Bento, sete não foram utilizados: Eduardo, Beto, Ricardo Costa, Miguel Lopes, Ruben Micael, Hugo Viana e Ricardo Quaresma. O seleccionador nacional teve praticamente o mesmo plano de ataque para todos os jogos. Repetiu o mesmo "onze" para todos os jogos da fase de grupos (caso único entre as selecções participantes) e para os quartos-de-final frente à República Checa, mudando apenas frente à Espanha, com Hugo Almeida no lugar de Hélder Postiga, devido à lesão do avançado do Saragoça.

Olhando para esta segunda linha com poucos ou nenhuns minutos no torneio, dificilmente se pode considerar que estejam na linha de sucessão. Homens como Custódio (29), Miguel Lopes (25), Varela (27), Rolando (26) ou Micael (25) poderão ser alternativas, tal como Danny (29), que falhou o Euro devido a lesão, mas o tempo já terá passado para Quaresma (28) e Viana (29) e Ricardo Costa (31), que nunca foram primeiras opções nem para Bento nem para os outros seleccionadores. Carlos Martins (30) poderá ainda voltar, mas a sua ausência do Euro retirou-lhe muito espaço, ele que chegou a ser titular com Paulo Bento.Poucos novos valores

Portugal teve uma geração de ouro baseada nos campeões mundiais de juniores em 1989 e 1991, que ajudou a cimentar o estatuto internacional da selecção. Começou a dar frutos no Euro 96 e foi a base das participações no Euro 2000 e Mundial 2002, tendo ainda razoável participação no Euro 2004. Figo foi o último a despedir-se, capitaneando a selecção no Mundial 2006, ele que se estreara na selecção aos 18 anos, poucos meses depois do título de juniores em Lisboa. Jogadores como João Pinto, Fernando Couto, Paulo Sousa ou Rui Costa também chegaram cedo à selecção.

O ocaso desta geração coincidiu com duas coisas: o FC Porto de José Mourinho e Cristiano Ronaldo. Jogadores como Ricardo Carvalho, Costinha, Maniche e Deco foram a espinha dorsal da selecção durante vários ciclos, ao mesmo tempo que o actual avançado do Real Madrid se ia tornando num dos melhores jogadores do mundo. Como provou o Euro 2012, Ronaldo está, neste momento, em boa companhia, mas, no médio prazo - Euro 2016 de França e Mundial 2018 da Rússia - pode já não ser bem assim.

Uma meia-surpresa da convocatória de Bento foi Nélson Oliveira, avançado suplente do Benfica e vice-campeão mundial de sub-20 em 2011. Com 20 anos, Oliveira foi o mais novo entre os 23 e foi suplente utilizado em quatro partidas, beneficiando do crónico défice português na posição de ponta-de-lança. Mas a sua afirmação na selecção terá de ser acompanhada pela afirmação no clube e isso é verdade para muitos outros jovens valores do futebol português, que vão tendo cada vez menos espaço nos grandes clubes.

Oliveira pode ser o avançado de Portugal para a próxima década e André Martins tem tido várias oportunidades para se afirmar no meio-campo do Sporting, mas são excepções numa altura em que os jogadores emigram cada vez mais cedo e em que os clubes portugueses apostam cada vez menos em portugueses. Da nova geração são estes dois que parecem estar na linha da frente para serem as estrelas quando já não houver Cristiano Ronaldo. Talvez Adrien Silva, talvez Salvador Agra, talvez Danilo Pereira. Ainda têm algum tempo para crescer, mas já não é muito.