Descrição

Cristiano Ronaldo e o guarda-redes espanhol Iker Casillas

Foto: Christof Stache/Francisco Leong/AFP
Portugal-Espanha

A segunda final da história à distância de uma acrobacia

É fatal como o destino: mais cedo ou mais tarde Portugal vai ser obrigado a entrar no carrossel do futebol espanhol. Paulo Bento já deve ter dois ou três bilhetes para as voltas que forem necessárias, mas está convencido de que, na altura exacta, a selecção conseguirá sair em andamento sem ir parar ao chão. É dessa espécie de acrobacia que esta noite (19h45, SIC) estará dependente o acesso à final do Euro 2012, que pode ser a segunda da história portuguesa.


A primeira (e única até à data) aconteceu em 2004, com o factor casa a jogar a favor de uma equipa que mobilizou o país. Para lá chegar, Portugal teve de bater, entre outros adversários, justamente a selecção espanhola, no último jogo da fase de grupos. Esse golo solitário de Nuno Gomes significou, curiosamente, a última derrota de Espanha num Campeonato da Europa. Desde então, tem sido somar e andar. Euro 2008? Arrematado. Mundial 2010? No saco.

Se há equipa que não precisa de cartão-de-visita na Polónia e na Ucrânia é a Espanha de Vicente del Bosque. Tem experiência (Casillas está a disputar a quarta fase final de um Europeu), tem talento (o lateral-esquerdo Jordi Alba será o exemplo mais recente) e tem currículo (como se os títulos não bastassem, ocupa o primeiro lugar no ranking da FIFA).

Paulo Bento (e todo o mundo do futebol) está a par disso. Disso e do resto, daqueles pormenores que só vêm à tona depois de uma análise mais fina. "Espanha chega com a equipa muito junta ao último terço do campo, cria uma densidade muito grande no centro do jogo. Tem um estilo definido há muito tempo e é evidente que encontraremos muitas dificuldades. Tentaremos não andar a reboque da selecção espanhola", promete.

É precisamente isso que tem acontecido aos adversários da actual detentora do título neste Euro 2012 (a excepção terá sido a Itália em alguns momentos da partida). Busquets, Xabi Alonso, Xavi, Iniesta e David Silva constroem a teia em redor do oponente e depois ficam, divertidos, a vê-lo contorcer-se. O seleccionador português olha um pouco para além disso: "O jogo vai ter momentos em que iremos conseguir dominar. Queremos ter a bola, mas do outro lado vai estar uma equipa que nesse item tem superado todas as equipas. Devemos ter ambição de a querer, a coragem de atacar e paciência quando não a tivermos."

Há, pelo menos, dois pontos em que Bento e Del Bosque estão de acordo. O primeiro é que Portugal não vai remeter-se à defesa à espera do assédio espanhol. "Se me perguntarem como quero que jogue o adversário, prefiro que se feche no seu meio-campo. Mas Portugal tem outras alternativas", atira o experiente técnico que tomou conta da Roja em Julho de 2008. "O nosso objectivo não é passar o tempo a defender. Queremos dividir o jogo", confirma o treinador que se estreia numa fase final de um Europeu.

Se não restam dúvidas sobre a atitude da equipa portuguesa no relvado da Donbass Arena, poucas sobram também quanto aos intérpretes. Hugo Almeida está confirmado como substituto de Hélder Postiga ("A seleçcção não tem de mudar o estilo de jogo só por eu estar em campo", assinalou) e, do outro lado do campo, os pontos de interrogação caem sobre as cabeças de Cesc Fàbregas e David Silva. Pelo menos é essa a convicção de Paulo Bento.

"Penso que Espanha não mudará nove jogadores. Se joga Fàbregas ou Torres, Silva ou Pedro, logo veremos. Nós temos a nossa estratégia definida. Temos a certeza de que vamos ser uma equipa organizada, ambiciosa, corajosa e a querer melhorar a história do futebol português." É aqui que entra o segundo exemplo de sintonia entre os dois seleccionadores. "Não acredito em mudanças. Eles têm sido muito estáveis, têm jogado sempre os mesmos. Mas se fizerem algo novo, ajustar-nos-emos", garante Del Bosque.

"A 50% em quase tudo"

Espanha não tem colhido apenas frutos do onze inicial que apresenta. O dedo do seleccionador na hora das substituições tem tido um quê de magia: as alterações que fez nos quatro jogos até agora realizados produziram ou golos marcados pelos jogadores lançados em campo ou participação directa em lances decisivos. Fora dessas contas, contudo, tem estado Fernando Llorente, o avançado eleito pelos leitores do jornal Marca, num inquérito promovido no site, como o preferido para jogar na posição nove. Del Bosque corta a direito nas explicações sobre as suas escolhas: "O único inconveniente que temos é a máxima competência que há."Ainda assim, Bento não vê só competência quando passa o adversário a pente fino. "Estamos perante uma equipa que é campeã da Europa e do mundo, mas que também teve dificuldades contra a Itália e Croácia. E frente à França não construiu um conjunto de situações de finalização muito elevado", assinala.

Por tudo isto, e porque o Cristiano Ronaldo do Real Madrid está a ser o Cristiano Ronaldo da selecção (Del Bosque recordou, a propósito, que a marcação cerrada ao capitão português deu resultado no Mundial 2010), tem-se falado muito em equilíbrio. "Nós temos a responsabilidade de defender o título e Portugal tem responsabilidade porque está perto de alcançar o maior êxito da sua história. Estamos em quase tudo a 50%", avalia o espanhol. Bento vai mais longe: "Temos a nossa identidade e não faz sentido jogar as meias-finais e não nos inspirarmos em nós próprios."

Notícia corrigida às 11h00: Substituído "nos quartos-de-final" por "no último jogo da fase de grupos" no segundo parágrafo.