Opinião

Jogadores da Espanha "são relógios com botas"

Bruno Prata

1. Foi o Europeu da Espanha, que tem de uma geração irrepetível e jogadores que "são relógios com botas", como se leu no El País. Mas também foi o Euro dos médios (e menos dos avançados) e das selecções criativas. Foi, por isso, o Euro do bom gosto. Houve jogos efervescentes e a qualidade foi interessante, tal como a média de golos (2,45). Portugal acabou entre os laureados, até por ter estado perto de inventar o antídoto para lidar com uma Espanha que, diz Casillas, é como o Tetris: as peças encaixam todas umas nas outras.

2. A taça que o guarda-redes levantou em Kiev era mais alta (18 centímetros) e mais pesada (dois quilos) do que as recebidas pelos anteriores campeões. Ninguém mais do que a Espanha merecia a versão mais vitaminada do troféu. Não foi, por razões várias, tão dominadora e fiável como vinha sendo nos últimos quatro anos. Mas voltou à "normalidade" quando foi mesmo necessário: no prolongamento com Portugal e nos 90" da final com a Itália, que há 41 anos não sofria quatro golos. Com o seu póquer de ases (Xavi, Iniesta, Silva e Fàbregas), a Espanha ultrapassou outras lendas como o Brasil de 1970, a "laranjamecânica" holandesa ou a Argentina de Maradona. E, como escreveu Santiago Segurola na Marca, conquistou uma vitória que "fecha o círculo mágico do futebol". Tudo sem um pingo de narcisismo. Todos desfrutam e colaboram. Porque o futebol espanhol não é só feito de "tiki-taka", mas também de uma capacidade pressionante que roça a perfeição e que lhe permitiu terminar só com um golo sofrido.

3. Paulo Bento soube unir o grupo e pô-lo a jogar um futebol moderno e contagiante. O momento mais determinante acabou por ser o golo de Varela. Por ter garantido o triunfo no fim do jogo com a Dinamarca, por ter desmentido a "Ronaldodependência" e por ter libertado o capitão, que pintou a manta com a Holanda. Depois, faltou a Portugal um pouco mais de sorte e arrojo frente à Espanha. E ainda um médio capaz de manejar o ritmo dos jogos, como fazia Costinha, e um desequilibrador como eram Rui Costa e Deco.

4. Às meias-finais chegaram os quatro melhores. A Itália confirmou ter o gene competitivo, mas Prandelli introduziu-lhe um rasgo diferenciador e a squadra azurra fugiu à nomenclatura dos que nunca abdicam do futebol poltrão. Até por isso irá ser-lhe perdoada a derrota pesada na final. A Alemanha parecia ser a principal ameaça da Espanha, mas Löw assustou-se com as exibições de Pirlo e condicionou todo o jogo a um italiano. A Rep. Checa foi uma selecção discreta e até começou por ser goleada pela Rússia. Ganhou consistência quando Hubchman entrou para o miolo e Jiracek passou para a direita.

5. A Croácia pagou caro ter caído no grupo dos finalistas e o medo excessivo frente à Espanha. É competitiva e tem bons jogadores, principalmente Modric, que Mourinho quer em Madrid. A Inglaterra só foi eliminada nos penáltis, mas o seu futebol reflectiu a falta de visão do seu treinador. A França chegou a prometer, mas pagou os erros defensivos e os egos descontrolados. Blanc também quis jogar com dois laterais-direitos frente à Espanha e vai ser substituído, provavelmente por Deschamps. Fernando Santos merecia uma equipa melhor do que a Grécia, que marcou em todos os jogos e foi até onde era possível.

6. Os países organizadores voltaram a ficar pela primeira fase. A Polónia tem três bons jogadores e a Ucrânia pode queixar-se do golo não validado a Devic, o maior erro de arbitragem numa prova em que os árbitros até se saíram bem, principalmente o "nosso" Proença. A Irlanda só merece elogios pelos adeptos nas bancadas. A Dinamarca não fez muito melhor e a Suécia merece referência pelo golo de Ibrahimovic com a França, o melhor do torneio. A Rússia começou de forma espectacular, mas pagou o medo frente à Grécia. A maior desilusão foi a Holanda, um vice-campeão mundial que acabou irreconhecível e numa luta depressiva de egos. Marwijik teimou na tese de que Van Persie e Huntelaar eram incompatíveis...

7. Não houve novidades tácticas e a maioria das equipas jogou num 4x2x3x1 (Alemanha, Rep. Checa, Dinamarca, Holanda sempre, mas também por vezes França, Inglaterra, Polónia e Grécia). Foi, por isso, o Europeu do duplo pivot. A Itália surpreendeu pelos três defesas nos dois primeiros jogos. A aposta mais ofensiva foi oferecida pela Espanha, Portugal e Rússia.

8. Iniesta tinha de ser eleito o melhor jogador, até porque Pirlo esqueceu-se de jogar na final. Depois de Zidane (2000), Zagorakis (2004) e Xavi (2004), voltou a ganhar um médio. A lista de 23 escolhida pela UEFA tem dez espanhóis (só falta Arbeloa). Mas é inadmissível a ausência de João Moutinho num rol onde estão De Rossi, Gerard e Khedira. Na selecção portuguesa, só Pepe atingiu um nível médio superior a Moutinho. A minha selecção do Euro: Casillas; Selassie, Pepe, Ramos e Alba; Pirlo, João Moutinho e Modric; Iniesta, Cristiano Ronaldo e Fàbregas. Sim, com um "nove mentiroso" para vergonha dos verdadeiros pontas-de-lança.9. Num torneio marcado pela grande crise europeia, apenas dois jogos terminaram sem golos (Itália-Inglaterra e Portugal-Espanha). E só aconteceram quatro penáltis e três expulsões. A xenofobia dos adeptos russos também foi notícia.