Opinião

E no fim a Alemanha não ganha

Sérgio Aníbal

Não gosto de estragar a minha paixão pelo futebol com assuntos menores como a política, a economia ou a geoestratégia. Para mim, futebol é só futebol e esforço-me para não me pôr a pensar nas políticas e políticos de cada país quando estou a assistir a um jogo entre selecções.

No entanto, neste Europeu tem sido difícil seguir essa regra. Entre a Grécia do futebol feio e sem talento e a Alemanha do futebol geométrico e bonito, dei por mim a festejar, como um grego irritado com os festejos da chanceller Merkel, o empate de Samaras.

Também se revelou impossível não torcer por Mario Balotelli na sua luta contra Manuel Neuer, quando ao mesmo tempo outro Mario, o Monti, tentava quebrar a intransigência alemã na política a seguir na zona euro.

E, agora, quando os dois finalistas do Euro são exactamente os vencedores declarados da cimeira europeia do final desta semana, não resisto a ter o desejo de que aquilo que tem vindo a acontecer dentro das quatro linhas seja mesmo um espelho do que acontece na política e vice-versa.

É que, ao contrário do que disse Gary Lineker em 1990, o futebol já deixou de ser há alguns anos aquele "jogo simples em que 22 homens correm atrás da bola durante 90 minutos e no fim a Alemanha ganha". Agora, é verdade que continua a ser um jogo simples, com 22 jogadores e 90 minutos, mas, no fim, quem ganha é mesmo um país periférico do Sul da zona euro. Desde 2004, com a surpresa da Grécia em Portugal, que todas as vitórias em campeonatos do Mundo e da Europa vieram para esta região em crise. Uma série de vitórias deste tipo para os periféricos, iniciada com a cimeira concluída ontem em Bruxelas, seria também muito bem-vinda nos futuros conselhos europeus.