Opinião

A Espanha e a posse de bola irrenunciável e hipnotizante

O "tiki-taka" é a forma de vida da Espanha, para quem a bola é algo de irrenunciável. Ninguém tem tantos talentos juntos como esta selecção, que está a tornar-se uma lenda. Até por poder conquistar uma tripla inédita (Europeu+Mundial+Europeu). O segredo? A posse hipnotizante da bola. Tudo funciona em função da bola, monopolizada de forma que chega a ser vexante para os adversários.

A fonte de inspiração continua a ser o Barcelona. Algo indesmentível por muito que José Mourinho tenha vindo dizer que o seu Real Madrid também lá tem cinco jogadores. Claro que a Espanha não tem Messi, o que faz diferença. E Mourinho não deixa de ter alguma razão quando se vê que a Espanha tem mais músculo do que o Barça à custa da (discutida) presença no "onze" de Xabi Alonso. Mas esta Espanha nunca poderia ser produto do special one, desde logo porque a bola, a criatividade e a posse são os seus selos de qualidade. Por outro lado, a rapidez das transições ofensivas e o contra-ataque raramente são prioridade.

Os detractores do "tiki- taka"começaram a descobrir-lhe defeitos. A imprensa italiana diz que é repetitivo e monótono. Uma visão que enferma de primarismo e até de alguma emulação. "O mais importante é que temos o controlo na defesa e no ataque", respondeu-lhe Del Bosque. E tem razão o seleccionador espanhol, porque a Espanha é também uma das melhores máquinas defensivas que alguma vez se viu. A Roja sofreu apenas três golos no anterior Europeu e apenas dois no Mundial. Na fase de qualificação foi batida por apenas seis vezes nos oito jogos. Agora, segue com apenas um golo sofrido, no empate da primeira jornada frente à Itália. Del Bosque, que herdou de Luís Aragonés uma selecção competitiva, só sofreu duas derrotas em jogos oficiais: frente aos EUA, na Taça das Confederações, e ante a Suíça, no Mundial da África do Sul.

Desde que é seleccionador, a Espanha marcou 145 golos, conseguindo uma média de quase 2,45 golos por jogo, a mais alta dos últimos 20 anos. Mas o mais sintomático é que 98 desses golos (68,5%) nasceram de jogadas colectivas e apenas nove de acções individuais. Aconteceram ainda 14 golos fruto de jogadas de estratégia, 12 de penálti, dez de recuperações e duas na própria baliza.

No Europeu, e em comparação com Portugal, a Espanha tem mais golos marcados (oito contra seis), mais passes (3211/1754), mais faltas sofridas (63/55) e mais posse de bola (61%/46%). A selecção portuguesa leva vantagem nos remates (70/67), nos cruzamentos (55/20), nos cantos (35/33) e nas faltas cometidas (60/43). O que só vem confirmar as diferentes abordagens ao jogo.

O sexagenário Del Bosque é visto como um conciliador por natureza desde os tempos em que tentou domar os "galácticos" em Madrid. Essa capacidade de gestão do balneário permitiu-lhe resolver os litígios entre os que jogam no Real e no Barça. E tem sabido dar a oportunidade a muitos jovens, até por não poder contar com o capitão Puyol e com Villa, o máximo goleador da selecção.

Estratégia

Em todas as zonas do campo, as ferramentas de trabalho são as mesmas: jogo de passes, combinações, toques curtos (quase sempre), mas aqui e ali também longos, triangulações, tudo com múltiplas variantes tácticas. Mas tendo sempre como ponto de partida o mesmo desenho táctico (4x3x3), que por vezes se confunde com outros como consequência do permanente movimento das peças. Por vezes parece ser um 4x1x4x1 (quando Busquets fica como único guarda-costas e Alonso se aventura), mas também pode passar por ser 4x2x3x1 ou até um clássico 4x4x2. Esta selecção pode jogar com extremos natos colados à linha ou com interiores que ocupam a ala, mas depois surgem mais por dentro, permitindo as penetrações dos laterais. A ideia é sempre melhorar a jogada com cada passe, mesmo que isso implique um retrocesso estratégico. Quando algo falha no "carrossel", é impressionante como a equipa se organiza e pressiona com uma agressividade que não parece bater certo com a pequenez dos executantes. Os livres são marcados por Xavi. O médio do Barcelona também aponta os cantos dos dois lados. Nos cantos defensivos, a Espanha defende misto (deixa sempre solto um homem no primeiro poste). É um dos pontos em que é menos fiável.

Defesa

Em comparação com as equipas que venceram o Europeu e o Mundial, a Espanha perdeu fiabilidade defensiva. Na baliza mantém um Casillas (31 anos; 1,85,) que continua a bater recordes. Tem como única debilidade o jogo de pés. O defesa direito é Arbeloa (29; 1,84), conhecido por começar as épocas como suplente e acabá-las como titular. Não ataca, mas é competente a defender. Lateral-direito na África do Sul e na qualificação, Sérgio Ramos (26; 1,83) fixou-se a central após a lesão de Puyol. É forte no jogo aéreo. Ao seu lado surge Piqué (25; 1,85), que fez a sua pior época no Barcelona. A sua lentidão pode ser explorada. A alternativa é Javi Martínez (23; 1,89), que pode jogar a "trinco" e fez uma grande época em Bilbau. Na esquerda tem vindo a brilhar o jovem Jordi Alba (23; 1,70), que o Barcelona pretende contratar ao Valência. Tem um bom pé esquerdo, é muito ofensivo (já foi ala), mas algo permeável lá atrás.Meio-campo

O miolo da Espanha é a melhor casa de máquinas do mundo. Ali, inventam-se obras de arte. O duplo pivot é formado por Busquets (23; 1,89) e Xabi Alonso (30; 1,83). O primeiro é mais posicional. Iniesta (27; 1,70) e David Silva (26; 1,72) jogam com o pé trocado e procuram sempre terrenos interiores, com diagonais e movimentos constantes. Não é de excluir a possibilidade de Silva ceder o lugar a Pedro Rodríguez (24, 1,69), que não fez uma grande época em Barcelona, mas entrou bem frente à França. A sua colocação à frente de Arbeloa seria uma forma de lidar com a melhor sociedade de Portugal (Fábio Coentrão+Ronaldo). No meio surge Xavi (32; 1,70), a alma do "carrossel". Tanto pode jogar curto, como participar numa triangulação ou num lançamento que desafia a lei da Física.

Ataque

Na qualificação, o lugar de ponta- de-lança foi o mais democrático, aberto a vários concorrentes: Torres (28; 1,81); Llorente (27; 1,93), Negredo (26; 1,86) e Villa, que também jogou na esquerda. Mas Del Bosque deve repetir o "9" mentiroso e voltar a colocar Fabregas (25; 1,80), como aconteceu nos jogos mais importantes (frente à Itália e à França). Assim, jogam seis médios e ninguém fica fixo na área. Mas há muita gente em condições de lá aparecer. Nos outros dois jogos do Europeu, a opção beneficiou Torres, que já marcou dois golos e parece ter ganho alguma confiança com a conquista da Champions. Negredo só foi utilizado com a Croácia e Llorente nem se estreou, ele que no Mundial foi importante na eliminação de Portugal.